A nova sugestão de pauta

Andei consultando alguns profissionais de comunicação – jornalistas, professores, entre outros – para que falassem um pouco sobre o processo de sugestão de pauta dentro desse novo contexto virtual. Apenas uma pergunta e liberdade para dissertar.

O primeiro a participar é Gilberto Pavoni Junior, com quem tive o prazer de trabalhar e considero um dos jornalistas mais gabaritados quando o tema é internet. Jornalista especializado em tecnologia e em tudo que gira em torno dela. Atualmente colaborador da Information Week e consultor de algumas agências e empresas. Ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo em 2009 e está entre os finalistas de 2010. Usa redes sociais há anos, mas já vislumbra uma distopia chegando.

A pergunta: com o avanço dos canais digitais de comunicação, o que mudou (ou deveria mudar) no modelo/conceito de sugestão de pauta?

O que mudou é que os contatos são mais fáceis e as agências criaram perfis nas redes. Só que o uso é ruim. Ainda é broadcast, ainda é comunicação de massa. Os perfis não interagem e só emitem notícias como se fossem um canal de TV. Ao criarem eventos, convidam os blogueiros mais famosos do mesmo jeito que fariam um evento com os principais veículos. Os meios aumentaram, mas a compreensão e atitude continuam as mesmas. Ou seja, mudou e não mudou nada.

Com as mídias sociais, há condições de montar uma notícia pronta ou dar novos formatos para a notícia. No primeiro caso, não há segredo. Com um release social, há condições de a PR mandar fato, fontes, contatos, fotos e material de pesquisa para o jornalista. Aí, não há segredo. Ou melhor, não há novidade. Isso já poderia ser feito pelo próprio jornalista e o release social só economiza tempo. Sem dúvida, essa economia é importante. Mas, não vejo grandes novidades aí. Talvez haja a necessidade de uma evolução num traquejo maior para incluir como fonte a network, os fãs, os virais, as trocas de interações e como a notícia foi apropriada por quem consome a notícia.

O que me chama a atenção é que poderia haver um uso do ambiente das ferramentas tecnológicas sociais para criar um novo sentido e formato para a notícia em um cenário de falta de atenção e de necessidade de jornalismo como entretenimento. Ler notícia como fazemos normalmente é OK e acho que isso ainda deva persistir porque agrada a muita gente. Porém, há quem goste de informar-se de outros modos. E isso está crescendo, especialmente entre os mais jovens. Seria muito uma PR sugerir uma pauta de notícia-game ou transmedia… ou mesmo sugerir as plataformas de mídias sociais como meio por onde se irá gerar a notícia? Ou mesmo mandar isso pronto? Dá pra pensar e noticiar o que ocorre no Foursquare? É consumo como mídia. Como vamos trabalhar isso?

A construção desse novo modelo deveria ser feito na redação. Mas, há um problema (especialmente no Brasil) de enxugamento da mão-de-obra. Não há tempo nem capacidade técnica de se fazer isso nas redações. As agências de PR podem ajudar nisso. Já vi discussões no GoogleBuzz que poderiam virar notícia. Há fatos que podem virar games (efêmeros como o da bolinha de papel no Serra ou complexos como os da produtora Persuasive Games, especializada em newsgames) . Dá pra transformar coletivas e webcasts em discussões ao vivo… etc. Qual o nosso mashup da notícia? Porque carregamos centenas de músicas no dispositivo móvel e não guardamos essas notícias em novos formatos revolucionários?

A meta (ou a métrica) para isso seria a interação, a criação de comunidades em torno da notícia e de seus agentes. O problema para tudo isso é que haveria uma transferência de poder. O jornalista perde poder, a PR perde poder, o cliente perde poder e o leitor ganha. Poderia, inclusive, criar-se um ativismo em torno da notícia que foge ao controle da estratégia de comunicação das empresas e pode se voltar contra. Outro problema, é que esses formatos revolucionários não podem substituir ao que existe, seria mais um. Mais trabalho aí. Talvez, prevendo esse nó, é que o treco não avance.

Produzir sentido num cenário de falta de atenção.

Veja também:
Exemplo de sugestão de pauta
Sugestão de pauta
Sugestão de pauta 2
Sugestão de pauta 3

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Especialista em mídias sociais ou especialista em comunicação?

As mídias sociais vêm dominando o mundo atual da comunicação. Eventos, discussões, grupos, estudos, reportagens levam algumas poucas soluções e muito mais dúvidas para quem trabalha neste segmento. A capacidade de discernimento é o que realmente conta. Isso porque é muito fácil encontrar consultorias e especialistas em mídias sociais. É preciso tomar muito cuidado com essas denominações.

Especialista pressupõe dois aspectos: o primeiro é a formação, ou seja, o profissional é um grande estudioso, mestre em mídias sociais/comunicação digital. O segundo é a experiência, quero dizer, ele trabalha há muitos e muitos anos com esse nicho, o que lhe dá bagagem necessária para tomar decisões com racionalidade.

Posso estar enganado, mas não consigo enxergar nenhum desses dois aspectos na grande massa de profissionais atualmente. Trata-se de um mercado ainda bastante novo que ganhou força efetivamente nos últimos dois ou três anos. Com isso, a academia ainda não conseguiu consolidar seus posicionamentos e visões. Na outra ponta, quem já trabalha com esse mercado tem, vá lá, uns cinco anos de experiência (o que não pode ser descartado, mas ainda é pouco). Ainda assim, também estão mais tateando do que qualquer outras coisa.

As empresas seguem a mesma trilha. Na ânsia de se posicionarem, de colocarem suas empresas e marcas no ambiente digital de forma positiva – claro, sempre pensando no retorno financeiro – acabam enfiando os pés pelas mãos. Talvez também por não saberem comprar, por ser algo tão novo quanto para elas.

Nesse caminho, começam a buscar os tais especialistas em mídias sociais. Um erro? Não sou tão pretensioso. Diria que é um risco. Antes de mais nada, temos de pensar que para lidar com este universo, o profissional tem de ser especializado em comunicação. E não estou aqui querendo blindar a categoria de jornalistas, RPs, publicitários. Mas a visão macro de comunicação é essencial para o desenvolvimento de bom trabalho com uma marca no ambiente digital.

Não basta conhecer a dinâmica e as especificidades de Twitter, Facebook, Orkut. É bastante óbvio que essas competências são importantes, mas resumem demais o modelo de negócio. A atuação em mídias sociais exige muito mais, já que tudo isso não passa de ferramenta (meio). Estamos falando de um nicho muito mais próximo da antropologia e sociologia, do estudo do comportamento das pessoas, do ser humano, do que de tecnologia. É isso que as empresas e agências deveriam priorizar.

Impossível negar que ainda há uma carência grande de conhecimento sobre o mercado de mídias sociais por parte dos profissionais de comunicação. Conheço jornalistas e RPs brilhantes que pouco se interessam, que não correm atrás, que sequer sabem o mínimo de comunicação digital. E isso, claro, também é um risco. Ainda há um bom espaço para o mercado de comunicação tradicional e ele não vai deixar de ser importante. Cada vez mais, porém, vamos ver esses dois universos de forma indissociável.

Como os profissionais das agências de comunicação entendem as mídias sociais

No ano passado o grupo de RP Digital da Abracom do qual faço parte realizou uma pesquisa com as agências e assessorias de imprensa para entender melhor como o ambiente digital estava sendo encarado por elas. A proposta era compreender a visão dessas empresas de comunicação sobre as mídias sociais.

Está no ar a edição 2010 do levantamento. Precisamos considerar que o mercado mudou muito neste curto espaço de tempo. Por essa razão, há muitas diferenças, novos questionamentos e contextos na nova versão. Ela está mais longa, é verdade. Cansativa até. Mas vale a pena abordarmos todos aqueles pontos para podermos traçar um cenário real deste nicho.

No ano passado, por exemplo, o Twitter ainda não tinha a força que tem hoje. Muitas das agências não contavam com um trabalho estruturado com mídias sociais e as dúvidas eram muito grandes. Continuamos aprendendo dia a dia, mas houve, sem dúvida alguma, uma grande evolução desse mercado.

Outra novidade na pesquisa deste ano está na busca por informações mais profundas sobre a rotina do trabalho de mídias sociais das agências. Há pergunta sobre o modelo de acesso às plataformas, volume de profissionais envolvidos com comunicação digital e uma breve passagem pela visão e uso das redes sociais pelos clientes.

Será possível, ainda, descobrir, a qual departamento está subordinado o trabalho de mídias sociais e também, entre esses profissionais de comunicação das agências e empresas, quais são as companhias que eles consideram referência nesse contexto. O levantamento questiona os profissionais de comunicação a apontarem os 5 melhores blogs brasileiros – de qualquer área.

Então, se você é trabalha em uma agência, é assessor de imprensa de uma companhia ou profissional de relações públicas, participe e ajude a divulgar. A pesquisa deve ficar no ar entre 15 a 20 dias e, em breve, divulgaremos o resultado.

Um exemplo de assessoria

A dica veio do Rodrigo Lóssio no Twitter e acho que vale a pena compartilhar com vocês. Até porque faz um bom tempo que não coloco nada sobre este gênero (assessoria) por aqui. É impressionante que numa época como a que vivemos hoje, ainda seja possível encontrar gente trabalhando dessa forma.

Vale a visita ao blog de Lene da Costa, que recebeu um e-mail da assessoria da prefeitura local. É de uma sutileza de dar gosto. Fiquei com a impressão de que o assessor resolverá todos os problemas dele com a correspondência (sic!).

Dúvidas do mercado sobre a relevância dos blogs

Tem algo que ainda permanece uma incógnita para a maioria dos assessores de imprensa e relações públicas. Como determinar a relevância de um blog para propor ao seu cliente uma ação, o envio de release ou de um convite para a coletiva de imprensa? A popularização do meio blog incentivou diversas agências a partirem para o ataque, até mesmo sob a ferrenha pressão de clientes. Virou febre.

Essa discussão se aproxima muito daquela de qualidade de clipping para apresentar ao cliente. Como determinar também a importância de uma nota ou reportagem sobre a companhia publicada nos jornais, revistas e emissoras de televisão? A centimetragem por coluna – que compara o espaço da matéria com o de um anúcio para dizer ao cliente o quanto ele está “economizando” continua sendo usado.

Outros modelos surgiram. Máquina da Notícia e CDN criaram novos recursos. Daqueles que consideram os resultados de pesquisas feitas com formadores de opinão, jornalistas, políticos, economistas, sociólogos. Mas se eu atendo uma empresa em Salvador, sem filiais espalhadas pelo Brasil, mas tem grande potencial para comunicação localmente. Pra que esse ranking que joga Valor Econômico e Estadão lá pra cima na pontuação quando uma notícia no *Diário de Salvador, que circula em alguns bairros específicos teria um efeito muito melhor para a companhia?

Não sei se há uma resposta exata para isso e, claro, vai depender muito do que se pretende, da estratégia que a empresa pretende seguir, do tipo de ação ou divulgação. E essa discussão sobre relevância dos blogs esquentou nos últimos dias com as mudanças promovidas em um site que se tornou referência: Blogblogs.

Usado por muitos para identificar alguns dos principais blogueiros, sofreu com a estratégia de um meme intitulado “Mamãe eu quero subir no Blogblogs”. Com uma campanha grande em que uns ofereciam links aos outros, alguns blogs até então desconhecidos ou considerados irrelevantes ocuparam posições importantes e chegaram a tirar o Interney da liderança. Isso mexeu com o ego de tanta gente. Basta dar uma olhada nos comentários postados sobre o assunto no Twitter.

O próprio criador do Blogblogs admitiu que há falhas que permitem espertinhos aumentarem suas posições. Artimanhas para isso não faltam, é verdade. Mas, qual é mesmo o motivo que levaria uma empresa a se comunicar com um blog? O número de visitantes? O número de comentários para cada post? Talvez, mas isso é métrica de mídia tradicional. Volume. É isso que a empresa quer? Quantidade?

Para se ter uma idéia, estava vendo uma reportagem sobre as enchentes em Santa Catarina. Essa é a principal pauta dos telejornais da TV. Ao navegar por milhares de blogs, verá que uma grande maioria publicou algo sobre o tema. Muitos dos textos são sem sentido, escritos às pressas, muito provavelmente com o intuito de atrair visitantes, nada mais. Os blogs acabaram se tornando mainstream então? Acredito que sim e por isso muitos deles estão perdendo o encanto que tinham, quando foram criados anos atrás.

Então devemos abandoná-los da estratégia de comunicação? Claro que não. É mídia, é meio e deve ser considerado como tal. Alguns inclusive, conhecem muito bem o mercado sobre o qual escrevem. Melhor até que boa parte dos jornalistas do setor. Não conhecem a Bia Kunze, por exemplo? Ela é dentista por formação, mas tenham certeza que ela entende muito mais de mobilidade do que a maioria dos jornalistas de tecnologia e telecom que conheço. Por qual razão não considerá-los se até mesmo relacionamento com celebridades, esportistas, entre outros públicos a empresa quer fazer ou manda a assessoria fazer, como bem lembrou minha amiga e guru Martha Funke?

Minha crítica, na verdade, está exatamente no processo de seleção de cada um deles para criar um relacionamento com a empresa. O autor do Dois Expressos escreveu um excelente texto sobre a questão de relevância dos blogs que resume bem o meu ponto de vista sobre o tema.

Ao contrário do que escrevi há muito tempo aqui, esqueçam estes rankings. Eles não dizem nada e só ajudam a confundir e gerar burburinho sem efeito prático algum para o seu cliente. Sempre surgem outros. Se fossem levados realmente a sério e contassem com métricas e metodologias incorruptíveis, os blogs com fotos de pornografia liderariam qualquer um deles.

Se tiver que buscar blogs para se que seu cliente se relacione com ele, analise a qualidade do conteúdo, conhecimento do autor sobre o tema, nível que ele tem de interatividade com seu público, quem são as pessoas que visitam e comentam cada post publicado, relação direta que ele e o público dele tem com seu produto ou serviço, exposição em outros blogs que realmente interessam. Pensar nisso vale muito mais a pena e dar um resultado positivo para o que se pretende. Relevância quem dá é conteúdo e qualidade. Quantidade é sempre bom, mas não significa o melhor negócio.

Esquenta: não quero mais essa discussão, porém…

Queria colocar uma provocação por aqui. Mas não gostaria que descambasse para aquela velha e ridícula briguinha entre jornalistas e blogueiros. Não tenho mais a menor paciência para isso. Reconheço sim os blogueiros como um canal, um meio, mas pouca gente ainda entendeu como lidar com eles e seus respectivos blogs, podcasts, etc.

Na verdade, há uma série de dúvidas martelando na cabeça das agências de comunicação (assessoria de imprensa e RP): afinal, como deve ser o tratamento dado ao dono de um blog? É o mesmo dado um jornalista da imprensa tradicional? É diferente? Por qual razão? A abordagem deve ser por release? Convidá-los para uma coletiva é um bom negócio? Vale fazer um evento só para blogueiros, separado da coletiva oferecida aos jornalistas?

Essas talvez sejam hoje algumas das principais preocupações e dúvidas de qualquer assessoria que já está atenta às transformações da comunicação (sim, tem muita gente que não faz a menor idéia sobre o que estou falando por aqui). Tenho percebido isso no Grupo de Estudos de Relações Públicas Digitais. E, sinceramente, dessa vez não há agência grande ou pequena, estão todas no mesmo barco.

Outro dia, durante o evento promovido pela Bites, encontrei a amiga Melissa Sayon, da Singular, e fiquei intrigado com a visão dela sobre essa relação. Afinal, o blogueiro é um novo canal de mídia ou um consumidor e deve ser tratado como tal?

Mas, sob o ponto de vista dela, se começamos a tratar os blogueiros como jornalistas, essa intermediação ficará insustentável à medida que qualquer um pode criar um blog e criticar empresas e serviços. Assim, não será possível gerenciar essa relação, tamanho o número de solicitações, de contatos, de comunicados.

Em geral, as pessoas criam esses novos canais para criticar. Comparativamente qual a quantidade de blogs que fazem elogios aos que detonam tudo? Acho que a resposta diz tudo. Se as empresas ao menos entregassem o que prometem, muitas dessas crises seriam resolvidas. Não haveria tanta gente insatisfeita. Mas isso é conversa pra outro post.

Acho que uma empresa vem buscando com mais empenho entender essa relação. A Nokia é uma referência mundial em diversos aspectos e quase todos sabem disso. É líder – sim, essa de verdade, não só no release – pela usabilidade de seus aparelhos. Agora estimula a utilização plena de seus dispositivos, afinal, mobilidade é o grande lance hoje.

A empresa promoveu o Nokia Social Media Connections. Sim, aqui no Brasil. Um encontro com diversos blogueiros e líderes de comunidades sociais do País para que se conhecessem, trocassem idéia. Uma espécie de Jam, a exemplo do que faz a IBM, mas de outra forma. E não digam que isso é post pago ok? Apenas achei a iniciativa bastante interessante e válida, que pode ser facilmente replicada por outras companhias. É conversa minha gente, conversa.

Assim, fica mais fácil entender com quem está lidando, não? Simples, direta, objetiva, sem ficar abusando de estratégias de marketing ou comerciais, como relata o Juliano Spyers em seu blog. Enfim, eu ainda tenho muitas dúvidas também em relação a esse tema. E espero suprir algumas delas no Newscamp.