NewsCamp


Por um período de cerca de dois anos chegamos (eu e alguns colegas de profissão) a organizar o NewsCamp.
Tratava-se de um evento simples, pequeno, para um público específico que pretendia discutir os rumos e
tendências da comunicação digital. Os participantes atuavam principalmente como jornalistas e/ou
assessores de imprensa. Alguns eram programadores e desenvolvedores.

Com o crescimento de grandes eventos de mídias digitais e sociais, o NewsCamp perdeu a força. Mas a
conversa pode continuar no Facebook, a partir do Grupo de Estudos de Relações Públicas Digitais
vinculado à Abracom. Acesse e participe!

Abaixo você pode acompanhar um resumo do que foi discutido nas edições do NewsCamp.

A quarta edição

No último sábado (29/11) acordei às 5h30, com uma amidalite de doer na alma. Uma hora depois estava eu desembarcando no CEMA, hospital 24 horas especializado em ouvido, nariz e garganta. Mau pressentimento? Talvez. Remédios receitados e bora para o Espaço Gafanhoto.

O primeiro ponto negativo. Apesar das promessas de transmissão em tempo real de tudo que aconteceu por lá, quase nada funcionou. O livestream da oficina de RP não ficou no ar sequer um minuto. O de jornalismo multimídia precisou ser transferido para outro portal. Enfim, problemas técnicos, mas que desanimam. De qualquer forma, gostaríamos de agradecer a participação e contribuição de todos para a realização de mais um evento.

Como fui responsável pelo conteúdo de RP Digital, é sobre isso que vou falar. Em tópicos fica mais fácil para disparar o que consegui captar por lá. Sei que vou me esquecer de coisas importantes. Por favor, complementem nos comentários. Sei, ficou longo, mas se quiserem saber o que aconteceu, leiam:

Conceitos – ainda há muita discussão em torno do que realmente significa relações públicas digitais. No fundo, o termo é restritivo e precisa ser ampliado. É comunicação e ponto. Não importa a formação (PP, jornalismo, RP, administração, etc). E cada vez mais vai precisar entender outros conceitos que até então estavam bem distantes.

Capacitação – como vamos treinar as equipes dentro das agências para que a comunicação digital seja horizontal (e não vertical como vem acontecendo) se nós mesmos ainda estamos repletos de dúvidas em relação aos temas? O treinamento ainda é muito básico porque o nível de conhecimento sobre as ferramentas, no geral, também é muito baixo. Esse é um grande desafio. Será que esse pessoal estará fora do mercado em poucos anos por não entender isso tudo? Todos que participaram dessa primeira parte do debate sobre RP Digital concordaram que é preciso entender pelo menos o básico de tecnologia (SEO, por exemplo) para conseguir oferecer e gerenciar serviços de comunicação digital. Rene de Paula colocou lenha na fogueira. Acha que há um excesso de expectativas – criada inclusive e principalmente por quem vende os serviços. É preciso pensar mais no básico, no simples, no arroz com feijão em vez de ficar divagando e trabalhando com milhares de ferramentas nas quais o resultado será pífio.

Blogs corporativos – transparência é algo realmente complicado para as empresa brasileiras. Mas não só sob o ponto de vista de uma organização. Os próprios executivos não gostam e não querem assumir o que dizem, isso pode trazer riscos. É por esse motivo que blogs como o do presidente da Sun dificilmente serão criados aqui no Brasil. Esse medo leva a desenvolverem blogs corporativos de marcas (Carrefour, Tecnisa, Claro, Vivo). A discussão em torno da necessidade de se criar blogs corporativos para determinados segmentos também voltou à tona. Muitas empresas são vidraças puras e não deveriam utilizar esse recurso (blog) como canal de comunicação. Viram divulgadores de press releases e repositório de informação que não interessa aos consumidores. Muitos inclusive são criados mais por politicagem interna e interesses pessoais de determinados executivos, não há a real intenção de torná-lo um canal de comunicação com um público. Acho que o choque de gerações ainda emperra a adoção de muitos conceitos e ferramentas novos, porém, não tenho tanta certeza se essa nova geração conectada vai assumir os riscos ou bancar o próprio cargo na hora de tomar decisões ousadas.

Depois do almoço a conversa passou para o tratamento de blogs. Na verdade ela começou na parte da manhã e continuou à tarde:

Relevância – como um blog deve ser tratado: como mídia ou como consumidor? É claro que isso vai depender da estratégia adotada pela agência ou pelo cliente. A identificação de hubs não é tão simples quanto parece e, em geral, algumas grandes audiências se devem às “promoções” e não ao conteúdo. Aliás, esse (conteúdo) é o direcionador de ações mais citado. Não a audiência, como se pensava. Chegaram a citar algumas situações extremamente constrangedoras para executivos/empresas que foram questionados e criticados por blogueiros convidados pela agência. Ela realmente não sabia o que estava fazendo. Gilberto Pavoni foi enfático: “precisamos pensar em mídia social, blog vai virar bolha”.

Relação comercial – a mediação de relações comerciais (posts pagos, jabás, etc, tema mais que batido) pode ser feita pela agência de RP? Muitos torcem o nariz, mas por qual razão não poderia? Afinal, isso é feito com redações, com celebridades, etc?

Case – Juliano Spyer mostrou algumas ações realizadas para a campanha do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab. Relacionamento e aproximação direta e transparente foram os principais tópicos. Os números reais, que não foram mostrados, foram questionados por alguns participantes.

Uso de ferramentas digitais na comunicação interna foi o tema que encerrou a conversação – ficam aqui minhas desculpas pela correria e falta de tempo para expor mais detalhes de cada empresa:

HP – Edissa Furlan falou um pouco sobre o comunicação interna na gigante de tecnologia. Trata-se de um modelo bem aberto em que a exploração de wikis é grande. Os números da companhia estão expostos – com níveis de acesso, claro – aos colaboradores e a confiança chega ao ponto de permitir que eles possam ser apagados e nunca mais recuperados.

IBM – realmente um fenômeno quando se trata de comunicação interna. Para estimular os colaboradores a usarem todos os recursos, criaram redes e sistemas que se assemelham muito (do ponto de vista da usabilidade) das redes sociais e canais externos. Descentralização da produção de conteúdo é ordem. Orkut proprietário, wikis, fóruns de discussão, intranet que permite que o colaborador personalize a seu gosto, 20 matérias/reportagens produzidas por dia só pela equipe brasileira. Valeu muito conhecer.

Considerações gerais

Pontos negativos – além das falhas tecnológicas, a circulação de pessoas foi menor que nas edições anteriores e o público foi menos participativo. As “palestras” foram interessantes mas realmente não funcionam nesse modelo de evento, direcionam as atenções para uma única pessoa.

Pontos positivos – nível mais alto das discussões que não descambaram para aquele infeliz debate sobre jornalistas x blogueiros. Patamar de conhecimento das agências está equiparado, sejam elas grandes ou pequenas. Apresentação de como funciona a comunicação interna na IBM.

Para entender um pouco de como foi a oficina de jornalismo multimídia, o Paulo Fehlauer escreveu sobre ela também. É só clicar aqui. Algo do que foi transmitido por lá pode ser visto também aqui.

O link de busca do twitter continua ativo para saber o que o pessoal comentou durante o evento.

Se você postou algo e quer compartilhar conosco, passe o seu link nos comentários ou então escreva para evasques@gmail.com.

A terceira edição

Demorei, mas não vou deixar passar. Finalmente vou traçar algumas linhas sobre a última edição do NewsCamp, que aconteceu sábado passado no Espaço Gafanhoto (obrigado Cazé). Por conta da movimentação, orientação dos participantes, troca de salas repentinas (falha grave nossa), fiquei meio perdido e peguei apenas trechos de alguns debates. Vou me concentrar ao que realmente interessa ao pessoal que freqüenta esse blog, ou seja, a oficina de Relações Públicas 2.0.

A proposta era simples. Mostrar o que algumas agências estão fazendo para lidar com esse novo modelo e formato de relacionamento com diversos canais digitais novos. Blogs, redes sociais, monitoramento da internet, entre outros temas deveria fazer parte do cardápio. Por isso convidei Rodrigo Pinotti (Imagem Corporativa), Mario Soma, Edney e Inagaki (Pólvora), Wallace Baldo (Ketchum) e Thiane Loureiro (Edelman). Eles já têm algo em produção e poderiam contar um pouco de histórias.

A conclusão que cheguei, durante a conversa toda, é que o trabalho será mais duro do que se imagina no mercado. A construção da importância que esses novos meios precisam ter no processo de comunicação ainda sequer foi estruturada. As ações estão sendo feitas de forma muito experimental.

Com resultados ou não, isso já é um caminho. E as críticas serão mesmo ferozes a quem se arriscar. Vão tomar pauladas, mas é assim que deve ser. Alguém vai acertar uma hora e conseguir resultados positivos. Só a discussão não leva a nada, é preciso fazer algo.

As empresas ainda não entenderam nada sobre isso e, em minha visão, pouco se mostram interessadas. As agências apenas testam formas para conseguir chegar a algo que apresente consistência. Além disso, como educar o mercado para isso? Se nem mesmo o conceito de assessoria de imprensa e relações públicas é entendido pelas organizações, realmente fica muito complicado embutir na cabeça de quem toma decisões em uma corporação de que é preciso agir e desenvolver algo para esses meios novos.

Como bem lembrou o Gilberto Pavoni, vale ressaltar que o intangível passará a ser considerado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o que deve mexer ainda mais com a cabeça dos executivos. O que isso tem a ver com a discussão? E valor da marca – on ou offline – é por acaso algo tangível, oras? Criação e gestão de marca, especialmente na internet, é um dos itens de maior complexidade para o marketing e comunicação das companhias hoje.

Parece-me, às vezes, que lidar com mídias/redes sociais é algo que se aproxima do direito dos tribunais. Em constante mutação, exige muito estudo, análise, critérios variados e brechas para uma argumentação bem defendida com a vitória no final.

Ainda não é possível responder a questões que deveriam ser simples como por exemplo, quais fatores devem ser considerados na comunicação de uma empresa com blogueiros? De que forma (press releases?) essa interação deve acontecer? Gustavo Jreige assustou alguns participantes ao dizer que a maioria das iniciativas com blogueiros, por exemplo, são feitas sempre com os mesmos figurões porque eles são amigos. Esse seria um critério válido para definir a estratégia? Mas isso não é tão absurdo. Basta replicar ao jornalismo. Quantas vezes um jornalista não deu uma passada numa coletiva de imprensa só porque o assessor era amigo e já tinha quebrado alguns galhos em ocasiões anteriores? Ou então deu aquela notinha no online para dar uma força para o cliente do amigo? E isso é real, não estou inventando nada.

E a velha história do relacionamento. Afinal, até mesmo eventos como o NewsCamp valem muito mais para isso, em alguns casos, do que para qualquer outro fim. Para trabalhar com mídia social é preciso entender relacionamento, pessoas, comportamentos. E isso não se aprende de um dia para o outro.

Seguir o modelo tradicional de publicidade e assessoria de imprensa não se mostrou uma atitude prática. Mas esse é o padrão a que as empresas e seus gestores estão habituados. Volume – como a TV – ou nicho (a tal da cauda longa). E, apesar de eu odiar aquela balela de “é um problema cultural”, não podemos descartar isso.

Poucas empresas e executivos vão se arriscar e colocar o pescoço na degola para “bancar” iniciativas nas quais o resultado ainda não é tão simples de ser visto. Compreender criação de imagem é algo extremamente difícil. É como segurança da informação, você não vê nunca e acha besteira, mas quando estoura a bomba, aí alguém desce do pedestal e sai em busca de um culpado.

Por enquanto, o mercado é isso. O “show me the money” é o que vale. Empresa só vê retorno sobre o investimento e não consegue identificar a importância da imagem, só na crise é que isso se torna real. Provar que um relacionamento com um blog, a produção e distribuição de um viral, um contato com o dono de uma comunidade no orkut podem e vão trazer retorno positivo de marca não é tão simples.

Mercado há para todos, sem dúvida alguma. Não existe, entretanto, um modelo definido, regras, padrões, conceitos. E acho que nem haverá. Não gosto desse papo de melhores práticas, parece papo de consultoria que fazia parte das “Big 5” do passado. Mas se o próprio mercado não se comprometer a desenvolver esses novos negócios e oportunidades, alguém vai fazer por eles. As associações deveriam chamar para si essa responsabilidade, mas há muito mais política do que atitude em boa parte delas.

O dinheiro para tudo isso só aparecerá quando os clientes se comprometerem a investir nesses meios como fazem com assessoria de imprensa, relações públicas e eventos. E esse processo é tão trabalhoso como preparar uma empresa a lidar com a mídia tradicional, como convence-la da importância de se ter um intermediário entre ela e os meios de comunicação.

E enquanto as ações não passarem de “jobs” mal pagos e com descrença de que existe a possibilidade de se obter bons resultados, o mercado como um todo vai olhar de forma reticente. Não será possível formar e educar mais gente para trabalhar nele, mostrar casos de sucesso, investir, ganhar dinheiro. É ciclo. Se os próprios agentes de toda essa cadeia da comunicação não se falarem e estruturarem o discurso e o lado positivo, esse mercado digital ainda vai levar bons anos para realmente ser lucrativo. Enfim, acho que é isso. Comentem.

Onde encontrar outras discussões sobre a terceira edição do NewsCamp

Blog Newscamp
Twitter
RP em questão
Na rua
Clico logo existo
André Deak
Em busca da palavra justa
Renato Cruz
Fotos – Alexandre Sena

Impressões da segunda edição do NewsCamp

Integração de redação online e impressa

Como adiantei, não consigo enxergar esse processo muito bem desenhado ou com sucesso em nenhum lugar. A produção, mesmo que forçada a unir as reportagens, continua dividida na maior parte dos casos. Não adianta, por enquanto, exigir que os profissionais produzam podcast, escrevam para o blog, criem novas ferramentas de comunicação e ainda escrevam para a edição impressa dos veículos.

Os profissionais de redação sequer aprenderam a criar bons vínculos ou pontes entre o que produzem para o impresso e para a web. Reaproveitamento de material de sobra das reportagens, entrevistas gravadas e assim por diante. Não há planejamento para integração desses recursos na redação e, claro, também não há dinheiro que venha de cima para que essa estrutura seja criada em prol desse ambiente integrado de comunicação.

É, no mínimo, inocência achar que isso é possível ainda mais com a remuneração baixa atual nas redações. Cheguei a comparar um editor de online que ganha 3,5 mil reais por mês enquanto um do mesmo veículo, só que do impresso, pode receber até 7 mil reais, ou seja, o dobro. O André Deak contou um pouco da história pela qual passou na Radiobrás, uma estrutura com muita gente, alguns profissionais das antigas que mal sabiam usar computador, entre outras coisas. Lá porém, havia recurso e a possibilidade de contratar gente jovem, antenada sobre as novas formas de produção jornalística. Foi pela união entre a jovem e velha guarda que o projeto começou a dar certo. Acho que ele poderia especificar um pouco em seu blog e complementar o exposto na NewsCamp.

Alguém também citou a editora Globo, que parece estar mais avançada nesse sentido de integração. Sim, eles deram um grande passo. Mas só consigo enxergar a união e concentração de produtos em um único ponto. Não posso opinar sobre a redação porque não a conheço. Outro fator é: mídia impressa vive de anúncio e ponto. Enquanto o bolo do impresso, mesmo em movimento decrescente, continuar a ser maior que o montante de faturamento com a internet (que permanece em crescimento), os barões só terão visão para o impresso e vão manter o modelo. “A hora que eles se cruzarem a estratégia muda, mas isso vai levar um bom tempo porque o dinheiro de publicidade na internet ainda é muito pequeno”, disse Gilberto Pavoni Junior.


Jornalismo colaborativo

Continuo acreditando que esse modelo aplicado aos veículos grandes e tradicionais, raras exceções, não passa de “trabalhe para mim de graça”. Coloco em questão também qual o retorno disso para quem escreve. O Gilberto Jr. chegou a falar sobre a construção da reputação a partir da colaboração. Costumo dizer que só a mãe, esposa, quando muito o assessor de imprensa, prestam atenção em quem assina uma matéria. Não creio, portanto, que isso seja relevante. Na boa, ninguém trabalha ou gosta de trabalhar de graça e é isso que vem gerando tanta discussão em torno da monetização em blogs e afins.

Alguém, infelizmente não me recordo quem, ressaltou que não se pode colocar tudo no mesmo saco e que iniciativas como as de Uol, iG e Terra têm perfis diferentes. Posso até concordar com isso, mas não fogem à regra que rege inclusive a home de cada um deles: notícias de famosos ou sensacionalismo puro. Mantenho, entretanto, meu posicionamento de que boa parte do material é descartável por se tratar de cópia de notícias do exterior ou de informações já propagadas pelas agências e grandes veículos de comunicação.

Enxergo o caminho do jornalismo colaborativo muito mais segmentado, específico para nichos com reportagem de interesse local, por público (como é o caso do próprio Desabafo de Mãe), etc. Principalmente em cidades grandes, o jornalismo local deveria ser mais considerado. Por conta dos engarrafamentos, as pessoas tendem a limitar suas áreas de passeio, lazer, compras ao bairro ou região em que moram. Basta ver o sucesso de construções de condomínios que valorizam cada vez mais serviços internos. Existem prédios hoje que reúnem todo tipo de opção (cinema, lan house, shoppings menores, padaria, mercearias, pet shop, etc). Eu moro em Pirituba e gostaria de saber o que está acontecendo na região, mas não encontro sequer um local de referência na web. Aí vem outro problema: quem estaria disposto a patrocinar um trabalho como este? Os comerciantes locais? Qual a margem disso para se estruturar uma equipe fiel de colaboradores sendo recompensada financeiramente pela produção?

Monetização

Sim, a palavra já causa calafrios. No fundo, qualquer um quer mesmo é ganhar dinheiro. Por conta de atitudes e palavras algumas figuras já bastante carimbadas que transitam na comunicação e no mundo dos blogueiros, todo mundo acha que essa “nova mídia” (se é assim que podemos chamar) será a fonte de renda do futuro. O buraco é mais embaixo e divide blogueiros e jornalistas.

Gabriel Tonobohn é bem enfático. “Quem quiser ganhar dinheiro tem que investir em ações na bolsa e não criar um blog”, diz ele. Esse é um dilema a ser enfrentado. A tendência é que o número de pessoas interessadas em viver com base em rendimento de blogs cresça de maneira exponencial. A diversão ou o simples prazer de compartilhar conhecimento não são mais factíveis e alguns profissionais já começam a especular uma bolha para esse mercado de blogueiros.

Vejo, e sei que muita gente compartilha esse ponto de vista, de que quando se fala em nova mídia a única opção plausível é blog, quando na verdade o leque deveria ser muito maior para a comunicação digital. As discussões estão sempre limitadas a blogs, por mais que se tente expor que isso é a apenas uma pequena parcela do mundo digital. As companhias não sabem muito bem para onde correr e a quem recorrer. “As empresas estão se deixando ludibriar porque todo mundo continua, no final das contas, na velha mídia. A matemática não mudou, as organizações apenas encontraram uma forma mais barata de atingir as pessoas, as agências também estão usando o mesmo conceito”, lembra Thiane Loureiro, da Edelman.

Ela explica: se as empresas querem atingir três milhões de internautas, desenham a estratégia e criam iniciativas com um número “x” de blogueiros que conseguem levantar uma audiência dessas e pagam “Y” para cada um deles. Pronto. O que mudou foi o valor investido. “As companhias estão se concentrando em um pequeno grupo e esquecendo o mais importante que é o consumidor final”, completa ela. O problema é que a crise na web é eterna. Até hoje, por exemplo, a Edelman tem de responder e se posicionar diante do caso do blog criado para o Wal Mart. A falta de transparência forçou as empresas a admitirem o erro em público e desencadeou uma série de novos procedimentos no conceito de relações públicas no meio digital.
No fundo, há um grande embate acontecendo. As pessoas não parecem estar interessadas em fomentar um novo mercado, educá-lo acerca do que realmente é mídia social na essência. Isso sim faria com que os mais sérios fossem respeitados, com que o mercado finalmente injetasse um dinheiro significativo em internet.

O blog corporativo, que poderia se tornar um produto interessante para muitas organizações, ainda carece de uma série de estratégias e definições. Imagine uma empresa como a Vivo, com cerca de 26 milhões de clientes, com um blog. Se 10% dos clientes estão insatisfeitos, são 2,6 milhões de pessoas. Qual seria a estrutura ideal, quantas pessoas deveriam coordenar o trabalho, como lidar com o fluxo de informações gerado a partir do blog? Não se trata somente de conteúdo para o blog, mas sua utilidade e interatividade.

Agora, sinceramente, se as empresas não conseguiram resolver alguns dos problemas mais simples em seus processos de atendimento e relacionamento – nas lojas físicas ou no call center – não estão preparadas para lidar com esse novo mundo. Na outra ponta, o fato é que, no geral, as pessoas querem apenas encontrar uma nova forma de ganhar dinheiro e pronto. Essa é a conta, simples e direta. Cada um corre atrás do seu da forma que achar conveniente e da forma que acredita ser a melhor.

Como bem disse o Pedro Markum, do Jornal de Debates – e eu assino embaixo -, se conseguíssemos levar alguns investidores para um evento com o NewsCamp, teríamos fila na porta de gente com cartão na mão para que patrocinassem ou comprassem seus blogs. Aí cabe outra discussão, a ética.

Ética no relacionamento com blogueiros e padronização

Esse tema pegou fogo. Não só por termos algumas assessorias de imprensa discutindo o tema (Imagem Corporativa, LVBA, Edelman estavam por lá), mas por ser um tema polêmico. Mais uma vez o assunto se limitou a blogs. O tratamento dado a blogueiros deve necessariamente seguir o mesmo padrão que a agência tem com os jornalistas? O jabaculê é válido também para este público ou a forma deve ser diferenciada?

Rodrigo Padron, gerente de contas da LVBA, lembra que a separação entre as ações de relação públicas e a publicidade para blogueiros é essencial para o bom andamento. “O que está mudando não é a empresa, mas os valores de cada um”, disse. E esse é um meandro ainda pouco explorado pelas agências de comunicação. Das poucas iniciativas, como bem disse Thiane, a maioria se concentra em um grupo muito pequeno e paramentado somente em blogs, quando a mídia social é muito mais que isso.

Eu particularmente não faço pouco caso das iniciativas, porém, creio que a maior parte das ações está sendo feita mais para que a empresa não “fique mal” entre os blogueiros do que propriamente constrói-se uma relação. Como já disse em outras oportunidades, vejo como maior problema dos blogueiros o fato de quererem se tornar mídia mainstream. Não estou condenando os caras, longe disso. Muito menos quero retomar aquela discussão ridícula de blogueiros x jornalistas. O próprio Manoel Netto, do Tecnocracia, propôs uma união entre estes dois públicos para o bem da informação e acho realmente que esse é o caminho.

Gil Giardelli, da Adrenax, porém, lembrou alguns fatos interessantes e que devem ser considerados. A falta de padronização na publicidade ainda pesa para que um investimento maior das empresas seja feito em blogs. Segunda a IAB, são 17 formatos universais e quase nenhum blog tem buscado isso. “Só para refazer uma peça, as agências cobram em torno de 4 mil reais. Por isso, não adianta blogueiro X mandar um mídia kit para a agência, o blogueiro Y mandar outro completamente diferente”, ressalta. “Sem contar que o mercado mal começou e alguns blogueiros batem no peito para dizer que não vão pagar o BV (comissão) da agência. É pedir para ser excluído do hall. Por mais que relutemos, o mercado ainda funciona dessa forma e esse tipo de atitude fecha as portas”, completou Giardelli.

Ele lembra que há vários fundos de investimento em busca de novas opções, mas não há postura ou conhecimento para uma abordagem mais segura e diferenciada, algo que consiga convencer que este sim é um mercado potencial e que pode dar retorno. Valadares, do Papo de Homem, contou um pouco de sua história. Segundo ele, antes mesmo de ganhar um centavo, já tinha um plano de negócios traçado e sabia que só conseguiria levantar dinheiro depois de 10 meses de atuação. Falta, no fim, um intermediário entre quem realmente sabe e quer ser profissional e os agentes que definem em que meios aplicar a verba de seus clientes.

Vale lembrar que a grana da internet ainda é “dinheiro de pinga” no Brasil. É aquele pinguinho que caiu fora do pires de uma jarra que transborda. Sim, porque o que está no pires é o que vai para os veículos tradicionais de mídia e seus famigerados banners, o que também é merreca. Isso casa exatamente com o que venho dizendo faz um tempão: na pressa, as empresas fazem o mesmo e não se arriscam.

E é por isso também que discordo até certo ponto do Gil Giardelli. Não consigo ver tantas venture capital ou empresas de capital semente dispostas a investir. Das poucas aqui no Brasil, o risco que desejam é muito pequeno, o que limita também o pode de fogo e de investimento.

Markum diz que há uma percepção nas empresas de que é preciso interagir com essas novas mídias de alguma forma. Concordo que ela exista. Mas da percepção à ação a história é bem diferente. Como eu disse, na dúvida, é melhor colocar dinheiro ou lidar com o que se conhece, com o volume e massa dos veículos tradicionais. Até que a troca de gerações – de executivos com poder de decisão – aconteça nas empresas, isso vai permanecer assim: o óbvio manda. Enfim, isso é assunto para a próxima desconferência.

12 thoughts on “NewsCamp

  1. REsultado da Newscamp 2, no meu ponto de vista.
    /// Networking. ///
    Não adianta imaginar outra coisa. Nessa fase q se está fazendo algo q ninguém sabe direito q bicho vai dar nem de onde vem o dinheiro, o importante é trocar contatos.

    Um tequinho de sabedoria e experiência de cada um ajuda a ver o quebra-cabeça… montar é outro problema. Mesmo asim, contatos. Ter crowd é melhor. Contatos.

    Se dos 70 q passaram 5 estão empreendendo alguma coisa, 10 são agitadores e articuladores, 15 falam mal e servem de parâmetro crítico, 20 querem um cenário mais favorável para se meter a fazer… e o resto não faz nada mas está na Web gerando mercado —- ótimo. Contatos, please.

  2. Acabei deixando de lado o empreendedorismo, mas você expôs da mesma maneira que penso.
    Talvez pelo assunto não ter me interessado muito, tive a impressão de que o nosso debate da sala de cima foi mais produtivo.

    Abraços.

  3. Acho que a fase que a internet está vivendo é propícia à mudanças, mas como eu vi lá não são e não estão todos dispostos.
    Enquanto alguns não abrirem a cabeça não adianta que a internet vai continuar sem reconhecimento, o material online não será valorizado (nos dois sentidos) e a qualidade então, nem se fala, vai ficando cada vez mais deprimente.

    Acho que se os blogueiros se mobilizassem um pouquinho e se a velha mídia ajudasse, os dois lados ganhariam em muitos quesitos.

    Enfim, deixei minhas impressões no meu blog.

  4. Que legal, parece que foi bem abrangente! Essa coisa de jornalismo colaborativo é o nome bonito que se dá à exploração, isso sim.😛

    E vc mora em Pirituba? Eu morei lá um bom tempo😀

    Bjs!

  5. Oi Thais (ou Thaisa?), tudo bem?
    Obrigado pela visita e comentário. Também acredito que o conceito de jornalismo colaborativo/cidadão ainda está muito embasado nessa história de “trabalhe de graça para mim”. Vai levar um bom tempo para que isso mude.
    Sim.. moro lá ainda e gosto bastante mas sair do bairro com carro está cada dia mais difícil por conta do trânsito.
    Valeu
    Abraço

  6. Edu, para quem ficou feito um maluco correndo de um lado p/ o outro em meio a tantas oficinas, o seu radar estava bem ligado. Parabéns pelo evento. Vou passar as minhas impressões logo mais, como eu enxergo, pelo lado executivo e pelo lado “inserido” em midias sociais. Abs.

  7. E porque eu fui lá, consegui saber menos do que antes! O que, no meu ponto de vista, é simplesmente maravilhoso!
    Não fui como jornalista, muito menos como RP, coisas essas que não sou. Também não sou de agência, nem de empresa… ai ai ai..
    Queria saber como é que o mercado trata aqueles que escrevem em blogs, os que acabam por viver disso.
    Minha conclusão, por menos que o evento tenha sido conclusivo – o que também é ótimo – é que na real, ninguém sabe muito a que veio.
    A imagem que eu tinha, das empresas, do mercado, das agências… PUF! ficou desintegrada, esfacelada, modificada!
    Para nós, os “meros mortais” que escrevemos nos blogs, ainda há um caminho a percorrer, uma história por fazer.
    Joio e trigo… pedra e vidraça… manipulação ou pró-atividade… tanto faz.
    Estamos no começo. O que vier, é lucro.
    Abraço a todos os participantes, para mim, valeu muito!
    Obrigada.

  8. Oi Alexandra, tudo bem?
    Eu que agradeço sua participação e contribuição. Acabei de atualizar a página. Na verdade é bem isso. Estamos todos no mesmo barco. Pela primeira vez não há diferença entre grandes, pequenas, médias, independentes ou estabelecidos. O desafio é para todos. Valeu!
    Abraço

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