Como é fácil ser ativista digital


Apesar de já trabalhar há algum tempo com mídias sociais, ainda tenho diversas “crises existênciais” com esse mercado. Talvez pela formação em jornalismo, o que me torna muito cético em relação a várias visões publicitárias ou pelos aspectos muitas vezes intangíveis do segmento de comunicação e relações públicas. Mas poucas coisas me incomodam tanto quanto o ativismo na web.

Os defensores vociferam por aí pela democratização da informação. Adoram usar como exemplos como as revoluções no Irã, na China. Oi? Desculpem-me, mas são situações completamente diferentes das que vivem os países com o mínimo de liberdade de expressão e acesso aos meios de comunicação digitais. Não podem – nem devem – ser usados como referência para esse tipo de discussão. Além disso, foram ferramentas usadas para mostrar ao mundo o que estava acontecendo, tamanhas as restrições e censura impostas. Mas a revolução estava nas ruas, não somente atrás de computadores.

Minha intenção não é cagar regra alguma por aqui. Ao contrário. Gosto de usar esse espaço para o debate (algo que vem minguando nos últimos tempos, é bem verdade na chamada blogosfera). Mas fazer esse tipo de comparação soa, no mínimo, ingênuo. É a mesma coisa que confrontar a estrutura administrativa e política do Brasil, com seus quase 200 milhões de habitantes e dimensões continentais a, por exemplo, Portugal, com seus 7 milhões de pessoas (menor até que a cidade de São Paulo).

Costumo dizer que o comportamento na internet nada mais é do que o reflexo do universo real, de tijolos. E você certamente já leu em uma porção de lugares que ela potencializa o que há de bom e o que há de ruim. Quer exemplos reais? Vasculhe os principais portais brasileiros e repare nas notícias mais lidas. Claro que vai encontrar muita besteira (fofocas de artistas, bundas, peladonas, e/ou algum outro tema que esteja em voga no momento). Num país no qual as escolas não contam com o mínimo de infraestrutura e hospitais com pacientes morrendo na porta por falta de atendimento, é muito “mais importante” fazer marcha pela legalização da maconha. Ah, façam-me o favor, mas é isso. É a realidade.

Enviar um tweet com uma hashtag, ficar esbravejando no Twitter, participar de “eventos” de protesto no Facebook não vão mudar a situação em nada, convenhamos. O chamado ativismo de sofá não vai mudar o mundo. Simples. Porque esses canais são ferramentas de suporte, nada mais que isso. Ajudam? Não podemos negar. Mas elas, por si só, não resolverão os problemas. As redes auxiliam na aproximação de pessoas com interesses comuns, linhas de pensamento semelhantes, mas não são elas que vão pegar panelas, exigir direitos e deveres e assim por diante. Protestar é organizar, engajar, estimular, compartilhar, integrar, ativar.

As pessoas parecem se sentir confortáveis em participar desses protestos. Até eu que sou mais bobo. Pronto, vou ali, ligo o computador, faço o “meu protestinho” e lavo minhas mãos, afinal, fiz a minha parte. O exercício da cidadania é muito mais que isso. É um movimento anterior ao uso de plataformas digitais. Deve estar presente na essência da pessoa, na formação básica, na concepção de mundo. Entendam. Não estou querendo dizer para que os protestos digitais não aconteçam. Só continuo achando que, de forma isolada, eles não vão conquistar o seu propósito.

Algumas pequenas perguntas para finalizar:

O José Sarney está fora do Congresso por causa do #forasarney?
Os protestos contra os aumentos dos salários dos parlamentares na web surtiram efeito?
Alguém do mensalão foi condenado e está fora da política?
O cinema Belas Artes, em SP, continuou funcionando apesar de todos os protestos?

Recomento, ainda, a leitura desse brilhante artigo de Eliane Brum sobre a nova geração.

3 thoughts on “Como é fácil ser ativista digital

  1. Concordo com você, o ativismo de sofá é uma forma da galera hoje clicar em “curtir” no Facebook e dormir com a consciência tranquila de estar fazendo a sua parte.

    Até acredito que exista um tipo de ativismo que acontece praticamente na web que realmente funciona. É o que a galera da Esfera anda fazendo, de compartilhar informação do governo, de hackear em prol da transparência, de fazer com que uma informação de poucos realmente vire domínio público. Você como jornalista sabe muito bem que isso pode ser muito poderoso.

    A diferença é que essa galera está fazendo muito mais que um tweet ou um curtir, estão programando, botando a mão na massa e gastando horas e horas nisso.

    Tenho pensado um bocado nisso. Em termos claros, tenho pensado muito que eu sou um mole que não faz nada. Não participo de muitas campanhas de ajuda que claramente têm fins políticos ou são muito ligados a associações religiosas.

    Faço coisas simples como doar sangue e dar agasalhos no inverno, que é quase tão fácil quanto “curtir”, e muita gente não faz.

    Resolvi ignorar esse tipo de “ativismo digital”, sempre vai existir a galera que só fala, e ir atrás de quem realmente está tentando mudar alguma coisa. Estou estudando isso para descobrir o que eu posso fazer como publicitário. É um começo.

  2. Rodrigo, tudo bem? Obrigado pelo comentário. Concordo, há gente com vontade real de fazer as coisas acontecerem em formato de ativismo digital. Mas temos de pensar que é uma camada pequena que atinge também um público muito pequeno – a grande massa não está interessada nesse tipo de informação, prefere as fofocas de artistas – para causar movimentos grandes. Não estou dizendo que eu sou “o ativista”. Ao contrário, sou muito relapso. Incomoda-me, porém, o discurso de que essas atitudes de curtir e dar RT possam mudar o modelo vigente. Mas pensar e discutir já é uma grande evolução, não é mesmo²

  3. Eu penso diferente..acredito que aquele que está no sofá e sente necessidade de fazer algo que muitas vezes não pode…por ignorância, por medo ou seja lá como for…podem sim contribuir com aquilo que pensam através de um simples compartilhamento atigindo as classes que podem realmente mudar as coisas, se os meios digitais dão esta oportunidade à aqueles que querem se expressar de algum modo, Beleza!! então vale a pena sim:)!!

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