Quanto vale a produção intelectual?


Nas últimas semanas sem querer tem surgido com muita freqüência um tema que me faz perder muito tempo pensando: a cultura do “almoço grátis”. Sim, aquela mesma criada pelo Google, em que tudo que se refira à internet é muito barato ou praticamente de graça. Pensei muito em escrever sobre isso talvez porque esse assunto sempre gera polêmica e já cheguei a falar disso outras vezes.  De qualquer forma, resolvi arriscar.

Falar sobre conteúdo (eu diria produção intelectual) fechado é quase um crime hoje em dia. É o mesmo que dizer em uma rodinha de gente da classe média alta que funk carioca é melhor que Chico Buarque.

Não sou nenhum defensor do Andrew Keen e suas teorias até porque ele está no mesmo nível daqueles gurus que pregam o apocalipse. Mas quanto realmente vale a produção intelectual? Qual é o valor dela hoje? Quanto você está disposto a pagar por uma música, uma reportagem, um filme, um livro? Admito. Também gosto de baixar um disco inteiro na web sem gastar um centavo ou de ler uma boa matéria na íntegra sem desembolsar um centavo. Mas pensei no outro lado (até porque faço parte deste outro lado).

E não digam que sou um ferrenho defensor da propriedade intelectual. Só acho que não há mais qualquer limite e ainda estou bastante confuso. Não há meio termo. Mesmo a flexibilidade – Creative Commons – cabe a alguns modelos, mas não a todos. Como funcionaria na música? Medo? Talvez. Justamente por integrar e viver com base na produção de conteúdo/intelectual.

Abusos há de lado a lado. Do povo que baixa tudo de maneira indiscriminada aos barões da produção intelectual, gananciosos e loucos por lucros estratosféricos.

A estratégia do magnata Rupert Murdoch é condenável? A França também busca alguma alternativa. Manter uma estrutura de produção intelectual de qualidade pode custar bem caro. Mas fico me perguntando se o público realmente quer coisa de qualidade. O sucesso do Youtube e seus vídeos simplificados, o jornalismo objetivo e sem profundidade, o estouro de músicas moldadas para tocar em rádios e mp3 players – aos meus olhos – andam provando que a qualidade talvez não seja o fator essencial para atrair o público.

Além disso, há o lado do venha a mim e ao vosso reino nada. Em conversa no Twitter com o @ibere surgiu algo interessante: já repararam que todo mundo defende o gratuito da coisa quando exerce seu lado consumidor? Em contrapartida, quando a pessoa exerce o lado produtor de conteúdo a história é outra. Acho que vale pensar nessa discussão.

Leia também:
Vozes da informação
Entrevista do músico Fred ZeroQuatro  ao G1

2 thoughts on “Quanto vale a produção intelectual?

  1. oi Edu, vim aqui procurar seu e-mail e achei seu artigo… aí fiquei matutando: não é totalmente de grátis, a musiquinha. Pagamos pelo device, pelo acesso, pela conexão… ou seja, um monte, só quem não recebeu foi o pobre autor do conteúdo – que é o motivo de tudo.

    Hilário, né? Pagar, pagou, mas quem devia, não recebeu. Ou seja, a questão é estimular o valor da produção simbólica em um mundo onde vigora o valor maior da produção material. É uma questão política, não é só econômica ou jurídica.

  2. Olá Eduardo,

    na mesma linha do comentário da Martha, acima, houve uma interessante sugestão (salvo engano do ex Ministro Gilberto Gil) de custear os direitos autorais através de uma taxação que seria imposta sobre cd`s (na venda da mídia física em si). A idéia poderia ser extendida para todos os outros meios eletrônicos de armazenamento de informações. Mas considerando que hoje em dia boa parte das reproduções não autorizadas se dá através de downloads, talvez fosse interessante pensarmos em alguma espécie de tributo sobre aqueles que lucram com o fornecimento de acesso à internet. O problema é que quando se fala em criar tributo (e ainda contra o poderoso lobby das empresas de telecom!) a coisa engrossa. Como disse a Martha, a questão parece mais política.

    Quanto ao interesse do público em pagar por produções mais “sofisticadas”, acredito sinceramente que além do cultural há um componente econômico na equação (baixa renda per capita da população brasileira x alto preço dos bens culturais). Acredito que a estratégia de oferecer mais conteúdo em versões pagas funciona com a parcela da população de maior renda. Acredito também que muitas publicações buscarão maior especialização, oferecendo informação precisa e “bem acabada”, coisa que nem sempre encontramos tão facilmente na internet.

    Abraços do seu xará,

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