Crise de inovação


A internet é linda, maravilhosa, gostosa, quentinha. É assim que todos a definem desde que ela se popularizou (ahã). Tirou e criou empregos, mudou estratégias, fez emergir ou evaporar conceitos e negócios. O santo Google (ou capeta para alguns) enfim reinou com seus serviços gratuitos e base de receitas na publicidade.

Virou festa. Tudo que remete à web ou tem de ser de graça ou muito barato. O que não é uma verdade absoluta. Junte nesse balaio de gato a queda do império fonográfico/cinematográfico. Milhões e milhões de downloads gratuitos, sem direitos autorais. Quê? Pagar pra ver um filme ou ouvir uma música? Imagina.

Sim, essas duas indústrias exploravam os artistas (e ainda o fazem em muitos casos). Sugavam suas almas, é bem verdade. A corporação ficava com quase a totalidade da grana e os cantores se matavam em turnês para, finalmente, conseguirem comprar suas mansões, colares de ouro e outros apetrechos.

Nessa brincadeira toda, compartilhar, remodelar, enfeitar, mixar, entre diversas outras expressões passaram a ser as palavrinhas da modernidade. Aquele papo todo de inspiração – que em boa parte não passa de uma cópia descarada com nova roupagem – ganhou mais corpo nos últimos anos.

Outro dia, porém, estava pensando em algo que me deixou preocupado. Com todos esses recursos disponíveis, muitas possibilidades foram abertas. Mas, será que não teremos uma crise de inovação nos próximos anos?

Não estou aqui para condenar ou defender o direito autoral, longe disso. Mas houve uma imensa desvalorização do processo criativo e dos autores. Não interessa mais quem fez. O que vale é o como fez e de que forma repercutir a tal criação. Também não se trata de uma discussão sobre ego. A minha pergunta é simples e direta: as pessoas ou empresas estão sendo recompensadas pela inovação?

Apesar de todas as maravilhas oferecidas pelos recursos digitais e pela internet, temo que os reais criadores não estejam recebendo da forma ou na proporção que deveriam. Então a conta é lógica. O que me leva a criar quando sei que, na verdade, receberei muito pouco ou nada em troca? O que pode motivar as pessoas a inovar além de dinheiro e qualidade de vida?

Ninguém vai se sentir estimulado a produzir algo diferente se não tiver, mesmo que em longo prazo, um retorno financeiro. E não venham me falar que as pessoas buscam reputação. Ela não necessariamente está ligada a dinheiro. Em RP, por exemplo, se o projeto tiver início com a proposta de aumentar a rentabilidade, esqueça, já começa errado. E RP é trabalho puro de reputação, imagem e marca. Além do mais, reputação é relativa. É igual regime de emagrecimento. O mais difícil não é conquistá-la, mas sustentá-la.

Há um deslumbramento excessivo em torno desses temas atrelados à web, redes sociais, relacionamentos digitais, comunicação 2.0. Mas como disse meu amigo Giba, “tudo vem sendo compartilhado é cultura pop. A internet é sim transformadora, mas a tecnologia é neutra. O que transformará é a maneira como a web será usada”.

E há mesmo tanta inovação nessa área? Durante o Campus Party encontrei com dois amigos, de empresas diferentes, que lidam com venture capital e financiamento de projetos. Eles foram lá para verificar se algo valia um aporte, se algum projeto poderia interessar, se encontravam algo realmente novo. Adivinhem com quantas propostas eles saíram de lá? Zero.

26 thoughts on “Crise de inovação

  1. “Ninguém vai se sentir estimulado a produzir algo diferente se não tiver, mesmo que em longo prazo, um retorno financeiro.”

    Eduardo, essa frase sua aí em cima você aplica somente à web ou a qualquer coisa? Porque se for a qualquer coisa eu discordo totalmente dela. Nem tudo que uma pessoa cria precisa estar atrelada ao ganho financeiro.

    Eu, por exemplo, pretendo escrever e lançar um livro em 2010 e minha motivação para isso jamais foi ganhar dinheiro, até porque livro nunca deu dinheiro para seus autores (vamos tirar Paulo Coelho da história, ok?). No meu caso – e que deve ser o mesmo de outras pessoas -, a motivação é pura e simplesmente a satisfação pessoal.

    Fora isso, concordo com tudo o que você disse.

  2. como a gente bem sabe, queridão, quem não sabe procurar, não acha. Tinha uma montanha de inovações na CParty… espalhadas no meio da cacofonia e da poluição sonora absoluta. Acho que os teus amigos não souberam achar as agulhas no palheiro…

  3. Creio que inovar diz respeito não apenas a tecnologia e dispositivos, mas também a processos e posturas. Nisso, se inova para ser sustentável – e disso se entende que a inovação é uma forma de “manutenção evolutiva”. Não creio que teremos crise de inovação no contexto da web porque não estamos nivelando por baixo, fazendo apenas mais do mesmo.

    Quanto às transformações, o pessoal do empreendedorismo social é economicamente muito sagaz quando observa que o uso social da tecnologia reconfigura padrões, hábitos, culturas e, em decorrência, mercados.

    Então, o uso social da tecnologia para tornar a vida “de todos” “melhor” é sim algo perene e (re)compensador porque nos mantêm posicionados de forma “atual”, mantêm nosso “lugar ao sol” (ou ao Google).

  4. Concordo que se viu bastante “mais do mesmo” durante a Campus Party, inclusive na banca avaliadora de projetos CP Labs. Mas lá, consultores me falaram que um dos “poréns” das propostas era a falta de know how de negócio, gestão. O que, vamos combinar, é bem óbvio em se tratando de startups🙂

    Tendo participado bastante das duas Campus Party em SP, continuo vendo o modelo do evento como uma das “Cities of the future”, cheia de identificação, afinidades, complementação, emergência, agregação de valor, ZATs, serendipity, atualização, intercâmbio e (até) inovação!

  5. Lucia, sinceramente, dei uma circulada boa por lá e não consegui enxergar tanta coisa boa ou diferente assim. Claro, não sou especialista, talvez seja por isso.

    Precisa pensar, entretanto, que este povo que citei é investidor, experiente, sabe o que faz. Só põe dinheiro em inovação que dê grana (sabe mto bem que investidor no Brasil corre risco zero também).

  6. Diego, tudo bem? Concordo com você e é isso o que eu disse para a Lucia. Brasileiro não sabe o que é business plan e muito menos o que é gestão.

    Concorda comigo que apenas uma boa idéia sem execução não é nada? Inovação é execução, e sem planejamento, business plan, gestão, negócio, não há inovação, estou certo?

  7. “Quem não sabe procurar, não acha”… Tá bom.

    De boas idéias (lindas no papel, mas sem garantias de retorno no médio ou longo prazo) o mundo está cheio, assim como esteve no período pré-bolha no começo do século. E deu no que deu.

  8. Concordo com partes dos comentários da Lucia Freitas e do Eduardo Vasques, mesmo havendo contrapontos entre eles.

    Plano de negócios se garantem apenas quando empreendedores e investidores considerarem que mercados são conversações e que é a estas conversações que se deve aderir. Entendo que esta sim é uma boa regra de mercardo/negócios/gestão.

    O bom da Campus Party foi o backstage, o “small” talk, o boca-a-boca personalizado. Não acho que brasileiro seja inapto à gestão – enquanto nação, somos muito férteis de exemplos de sucesso, alguns multinacionais e globais. Isso justifica os vários editais e eventos de seed money, angel money, etc.

    Claro que ninguém é perfeito em gestão, muito menos os iniciantes. Afinal, a “qualidade total” é um horizonte utópico, pois os mercados são organismos vivos – e, às vezes, temperamentais. Todos os grandes gestores e economistas reaprendem constantemente. A empresa da economia digital é uma inmovação em nome da adaptação ao grande novo mercado de “prosumers e geeks 2.0” formadores de opinão, que as empresas querem manter como público fiel e advogados de marca.

    A economia 2.0 tem a cara e o jeito do Brasil, sim. Claro que estudar e aprender sempre faz diferença. E isto, em si, é sim uma das grandes idéias vencedoras que os brasileiros mantêm dia-a-dia e em eventos como a Campus Party.

    (Re)Criar realidades não tem preço e não pode ser subjugado. Burocracia e formatação podem ser (eventualmente) papéis que não são o “core business” – por isso, se recorre à expertise de outros profissionais, externos à startup.

  9. Eduardo disse “Concorda comigo que apenas uma boa idéia sem execução não é nada? Inovação é execução, e sem planejamento, business plan, gestão, negócio, não há inovação, estou certo?”

    Antigamente, valia essa máxima. Hoje em dia, sabe-se que a gestão colaborativa por processos, em tempo real, etc., é um sólido contraponto.

    Felizmente para nós, Eduardo, e como se pode vislumbrar nas entrelinhas do que vc escreveu, os business plans e as metodologias de modelagem de processos de negócio podem ser, em si, idéias inovadoras que impulsionam outras idéias inovadoras!

  10. Não vou falar da cparty pq não fui. Embora tenha acompanhado online, não quero entrar nessa discussão sobre o evento.

    Já qto aos pjtos, o q eu mais vejo é um monte de boa intenção desprovida de senso comum e focada em tecnologia – e foco em tech é tãããão anos 90….

    Isso por si só já é um problema para seduzir os VCs. Não há tech que seja absolutamente diferenciadora e garantidora de liderança na competitividade do mercado atual. Estamos derrapando nos paradigmas de décadas anteriores.

    Mas, há um problema maior (até ligado a isso, de certa forma). Dos pjtos q eu vejo por aí, o maior entrave é q, na defesa da viabilidade comercial deles, há sempre um:

    “Se pudermos fazer com q os consumidores colaborem…. ou ‘façam isso’… ou ‘façam aquilo’”.

    Isso não é plano, é esperança.

    Mande-o de volta pra prancheta.

  11. Eduardo, concordo em parte com você… não acho que a inovação de hoje não acontece pela falta de recompensa… mas sim que a inovação precisa de um complemento fundamental: o modelo de negocios.

    Quando Thomas Edson criou a lampada, por exemplo, ele so criou e pronto… se fosse hoje ele ia ter que criar a “lampada da web” e para não virar um meebo, facebook e etc que faturam muito pouco na web teria que inventar também um modelo de negócios fantástico.

    Esse lance de que brasileiro não sabe fazer business plan, pra mim é conversa fiada. Se tivesse uma industria de venture capital de 5% tamanho desse segmento dos EUA, com certeza todo mundo saberia fazer… o que impacta de verdade, é que mesmo nos EUA os grandes sites e inovação na web não conseguem achar um modelo de negócios pela web ter esse padrão aberto… e aí sabendo ou não business plan, estando no Brasil ou EUA não dá pra fugir de ter que inovar / criar um modelo de negócios. O que na época de Thomas Edson não precisava (ele já estava pronto para qualquer invenção, em uma visão industrial).

  12. Eduardo
    Estive no CPLabs e acompanhei a apresentação de vários projetos. Boas idéias, não necessariamente oportunidade de negócios. E aqui temos uma grande diferença na hora de estruturar um plano de negócios. Vi, também, grandes problemas:

    1) Despreparo para apresentar a idéia. Postura, linguagem, argumentação. Isso foi gritante.

    2) A pergunta implícita ao se apresentar um projeto para investidores não foi respondida. Que pergunta é essa? Simples: Como é que eu ganho dinheiro com esta empresa?. Na hora que esta pergunta acontecia, rolava um silêncio sepulcral por parte do empreendedor. Tem um texto que gosto bastante que trata do processo de criação de start-ups (http://becocomsaidasebrae.wordpress.com/2009/01/14/nao-abra-antes-de-responder/) Abraço.

  13. Resumão bastante pretensioso: de um lado estão as idéias (boas ou más) e de outro o dinheiro (bom ou mal). O que pode ligar os dois? Mais que um bom plano de negócios, a necessidade comprovada.

    Thomas Edison não precisou fazer um plano de negócios simplesmente porque seu invento se mostrou, de cara, absolutamente necessário. E o que é necessário vende, com ou sem plano de negócios.

    De outro lado, as idéias circulantes hoje na web podem ser interessantes, bonitinhas, legais e até mesmo inovadoras, mas não são necessárias e este foi, provavelmente, um dos critérios de avaliação usado pelos investidores.

    Daí a esperança citada pelo Gilberto. Se não há uma necessidade atendida, qualquer boa idéia terá que contar com a “colaboração” dos consumidores.

  14. Nessa “onda Web 2.0.” nasceram milhares de projetos, iniciativas, inovações e serviços que vêm do além e vão para lugar algum, ou seja, estão cada vez mais próximos uns dos outros (engenharia semelhante, ambiente semelhante, processos semelhantes), mas, ao mesmo tempo, cada vez mais distantes dos usuários, justamente por visarem o suprimento, via web, de demandas que ainda são melhor servidas offline.

  15. Acho que a Vivianne conseguiu responder muito bem a sensação do Campus Party e do mercado como um todo. Ela, inclusive, é a representante de um dos investidores que citei no post. Volto a repetir: sem execução e planejamento de faturamento (como ganhar dinheiro), nada é inovação!

  16. Peraí… É bom explicar esse negócio da lâmpada e do Thomas Alva Edison…

    O Thomas Edison pegou a lâmpada para dar lucro e ele sabia que daria sim. Ele era inventor, mas também era empresário. Aliás, muito bem sucedido por causa da máquina de cotações.

    Ele sabia que existia um bom mercado de eletricidade. Já era a Segunda Revolução Industrial e havia os dínamos substituindo as máquinas a vapor nas fábricas e nas ruas havia as lâmpada de arco voltaico. O próprio Edison já tinha umas engenhocas elétricas patenteadas.

    Edison não inventou a lâmpada (exatamente). Já existiam lâmpadas pelo mundo. Ele inventou a lâmpada incandecente com novo filamento e vácuo. Uma inovação, sem dúvida. Mas, também, uma melhoria em cima de um mercado existente.

    Ele tinha um plano e isso envolvia lucro.

  17. Eduardo, me chamou atenção a passagem “O que me leva a criar quando sei que, na verdade, receberei muito pouco ou nada em troca? O que pode motivar as pessoas a inovar além de dinheiro e qualidade de vida? Ninguém vai se sentir estimulado a produzir algo diferente se não tiver, mesmo que em longo prazo, um retorno financeiro.”… Talvez exista um aspecto importante que não foi aventado em sua análise: se a criação e a inovação são feitas de forma profissional ou não.

    Se o artista vive disso, é claro que a partir de determinado ponto a situação poderá ficar insustentável, exceto se houver uma mudança de paradigma, como, por exemplo, a inclusão do sistema de download remunerado gratuito: http://reinehr.org/br/sociedade/saude-da-sociedade/dowload-remunerado-gratuito

    Entretanto, a crise de inovação e criação não afeta as camadas assim ditas “amadoras” ou não profissionais, ou seja, aquelas pessoas que conseguem seu sustento de outras fontes e são artistas por “essência” ou escolha, e criam e inovam por um ímpeto que lhes move, sem necessariamente buscar – em momento algum – auferir lucro.

    Veja, por exemplo a Coolmeia (http://www.coolmeia.org), feita por pessoas sem interesse nenhum em dinheiro (nas ações da própria Coolmeia) compartilhando ideias de pessoas que também estão pouco se lixando com a existencia deste mesmo dinheiro…

    (Ainda) não vivemos sem tutu (e não nego que é bom tê-lo), mas a criação e inovação mesmo na área artística não irá acabar tão cedo…

  18. Rafael, tudo bem?
    Obrigado pela visita e comentário. Devo, porém, discordar de seu ponto de vista. Mesmo o artista precisa sobreviver. Você destacou bem em “se o artista vive disso”… é outra história. Aí é hobby. O Orkut nasceu de alguns minutos livres que o seu criador tinha como funcionário do Google. E até hoje não encontrou um modelo comercial interessante, apesar das diversas tentativas da empresa.
    Fique na dúvida. Dei uma olhada no site da Coomeia e queria saber: quantos projetos ou ideias foram enviados para lá e quantos efetivamente estão funcionando, em prática, hoje?
    Abraço

  19. Eduardo,
    Os empreendedores que se apresentaram tinham:

    – expressão intensa de ousadia e de crença nos projetos de negócios;

    – poder criativo enorme para a concepção de idéias, entretanto é necessário melhorar a compreensão da viabilidade delas;

    – muito foco na invenção e pouco no processo de operação do futuro negócio;

    Isso quer dizer que os empreendedores digitais devem procurar desenvolver também aspectos relacionados à administração de empresas, considerando elementos de gestão, planejamento, marketing e finanças. Para isso, cursos, palestras, workshops, roundtables, conversas e leituras são imprescindíveis.

    Este conjunto de conhecimentos irá proporcionar maior segurança na tomada de decisões, principalmente na fase de busca de um investidor.

    E quanto mais rápido for o aprendizado, melhor.
    Abraço

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