Relação confusa e a falta de posicionamento


A mídia social ganhou status de toda poderosa no período de um ano. “Globo? Estadão? Veja? Pra quê, tudo besteira e dinheiro gasto à toa? Venham anunciantes, porque nós, dos blogs e comunidades, temos o poder de atingir o consumidor melhor que qualquer meio, em qualquer situação, não importa a maneira. Essa tal da mídia de massa não vale pra nada, o negócio agora é nicho, relacionamento personalizado”.

Essa linha de raciocínio não é minha, mas de muitos “consultores/evangelizadores de mídia social” que brotaram por aí nos últimos meses. Se é que isso realmente existe. Reconheço a importância desses novos canais de comunicação com diferentes públicos. Não dá para negar. Não sou cego, surdo ou burro – inocente talvez. Nem defendo os grandes veículos. Entre os novos meios há sim características muito interessantes e que, em determinados casos, a relevância, alcance e resultados podem ser melhores que os apresentados pelas mídias de massa.

Mas o que vejo é uma bagunça generalizada. De um dia para o outro, qualquer um saiu montando um blog, escrevendo asneiras e dizendo ser “especialista em mídias sociais”, “evangelizador” disso, “evangelizador” daquilo, prometendo mundos e fundos. Como sempre no Brasil, todo mundo querendo tirar um pedacinho do filé pra levar pra casa como banquete.

O que mais me espanta, na verdade, é que uma porção de pessoas e empresas compra essas idéias, adota a mesma postura e realmente acredita em tudo o que esses pseudo-especialistas andam gritando aos quatro cantos. Não conseguem perceber que entender de ferramenta é uma coisa, de comunicação é outra. Unir as duas é um negócio muito complicado, apesar de uma boa parcela do marketing e do mundo corporativo achar tudo bem simples.

Tem muita gente que ainda acredita que escrever é moleza. Que em meia hora se produz um texto de 10 páginas com excelente qualidade. Ou, então, que o design de uma peça também é “babinha”. Em 30 minutos qualquer fulaninho que manja um pouco de softwares para produção de arte, diagramação, etc, faz trabalhos de primeira linha. E provavelmente essas mesmas pessoas estão encarando o modelo das mídias sociais da mesma maneira. Até mesmo porque são induzidas a isso, afinal, tem tanto “especialista” hoje no mercado que deve ser fácil esse negócio. “Ah, internet, passa lá para o pessoal de tecnologia resolver”, pensam. E eu pergunto: TI?

Na outra ponta, tem muita gente vendendo uma competência que simplesmente não têm. E isso é extremamente prejudicial ao mercado. Experiências ruins com oportunistas e aproveitadores reduzem a confiança e atrasam o processo de evolução desse tipo de serviço. Há mercado para todos, mas ele precisa ser construído de forma inteligente, sustentável, transparente e profissional. E o papel das agências de comunicação é essencial para que este processo seja consolidado.

Como costuma dizer o amigo Rodrigo Padron, é a partir de agora que as Relações Públicas devem fazer sentido e serem aplicadas em sua essência, afinal, estamos falando de relacionamento com todo e qualquer público de uma empresa, uma especialidade de RP e comunicação. Trata-se de gerir marca, imagem, posicionamento, cultura de uma organização em um meio diferente do que se convencionou tratar. É diálogo, interação. Você ganha e perde argumentações, daí a importância da clareza e verdade.

Os possíveis compradores desse tipo de serviço precisam entender o que é mídia social e não sair comprando o que lhe vendem. Tem muita bajulação e efetividade de menos (dinheiro, para ser mais exato). Devem estudar para saber que há muitas opções, não três ou quatro que são hype ou queridinhas de blogueiros ditos famosos ou com uma audiência grande. Que blogs e comunidades inteligentes e alvo para as empresas existem aos montes. Não são uns 10 que topam participar, resenhar ou avaliar tudo, de lançamento de caneta a feiras e eventos em outros Estados ou países.

As agências têm, portanto, a dura tarefa de conseguirem se colocar nesse mercado, encontrar o seu devido espaço e conquistar a confiança (e a carteira, porque não) dos clientes. Mostrar que apesar de toda a força da internet e das mídias sociais, se você passar ali no ponto de ônibus em frente à Estação Ciência da Lapa, às 19h30, a maioria das pessoas não faz a menor idéia do que estamos falando ou quem é o dono do blog “X” ou “Y”, que tem uma “grande audiência” e é um “blogueiro famoso”. Aliás, provar que na web volume e quantidade não significam tudo. A relação é outra, as métricas são outras, o conceito é outro.

Falta essa postura das agências. De chamar para si a responsabilidade e provar que este sim é um setor que deve ser consolidados por elas. A Thiane Loureiro tem batido nessa tecla com muita propriedade. Educação para saber separar o que é bom e ruim, identificar no que vale a pena investir e fazer relacionamento, mostrar que não é qualquer empresa de qualquer segmento precisa ter um blog. Se já há um elo com as empresas por conta de diversos trabalhos (inclusive e não só de assessoria de imprensa), há uma abertura e uma relação de confiança que permite expor a experiência adquirida com comunicação a favor dos novos meios e ferramentas trazidos pela nova fase da internet.

7 thoughts on “Relação confusa e a falta de posicionamento

  1. Legal o texto Eduardo…

    eu vejo duas coisas no seu texto a ressaltar e que defendo:

    1) Talvez a tal da web 2.0 tenha mais a ver com Assessoria de Imprensa e RP do que agência de publicidade, pois não se trata de vender objetivamente, mas de se relacionar!

    2) Midias sociais ainda são menores do que a midia tradicional, parece óbvio mas com a empolgação de muitos às vezes parece o contrário como vocês disse.

  2. Ótimo post, Edu.

    O próprio mercado ainda é imaturo pra lidar com isso. Não são apenas esses evangelizadores oportunistas que atrapalham. Tem muita agência que ainda não entende as mídias sociais e a web 2.0 na sua real forma e ainda assim quer vender isso porque é hype. Quer fazer papel de moderninha antenada, quando na verdade, faz uma coisa bem meia boca. E como nem ela nem cliente sabem bem como medir o real resultado da ação, apresentam um discurso blá blá blá whiskas sachê blá blá blá, que chega uma hora que o cliente não vê resultado e pega desgosto pela coisa.
    Clientes também têm sua parcela de culpa, pois ainda acham que resultado é apenas $$, ignorando o potencial que relacionamento e branding podem gerar, seja em mídias sociais ou não. Porém, nelas, é papel das agências entender como a coisa funciona e explicar de maneira correta e pertinente para vender seu peixe aos clientes, coisa que não têm feito.

  3. Olá Edu,

    Eu creio que o grande problema também, é que empresas e clientes vão muito “no” e “pelo” modismo em comunicação, mkt e mudanças corporativas.

    Nem toda empresa está apta e deve ter um trabalho de mídia social. Vejo sempre exemplos aos montes de empresas que montam blog, mas não tem realmente um relacionamento verdadeiro. Não é o presidente que posta (é um assessor em nome dele), os posts são mais propagandas disfarçadas que canal de comunicação e por ai vai..

    Quero agradecer os posts claros e com bom racicíonio que vc, Thiane, Sam e Rodrigo Padron tem feito sobre RP. 2.0.

    Um abraço

    PS: gostei bastante da nova template. Parabéns

  4. Olá Edu!

    Cara, parabéns pelo texto e pelo blog. Estamos abarrotados de falcatruas fazendo site, assessoria e mídias de todas as formas sem nunca ter sentado em uma cadeira de faculdade. Profissionais de verdade precisam se unir e trabalhar com ética e comprometimento para terminar com este ciclo de agrados particulares em detrimento de trabalho sério. Conheço gente escrevendo coluna em jornal como especialista em marketing corporativo sem entender direito o que e para que serve isso.

    Abração e continue escrevendo. Descobri agora o blog, mas já gostei muito. Muito bom mesmo

  5. Edu, excelente análise e enfoque. Utilidade pública!
    No meu caso, que a pouco tempo iniciei trabalho de relacionamento e assessoria para empresa de representação comercial, seu blog será fundamental. Mesmo formada em jornalismo, estas relações e funções não são apresentadas e atualizadas no meio acadêmico… Aos poucos e com muito esforço e trabalho voltarei a entender esta dinâmica e espero continuar aprendendo muito com vocês neste espaço.
    Grande abraço,
    Priscilla Gutierrez

  6. Diego – tudo certo? Você foi direto ao ponto. As agências de publicidade estão engolindo um mercado que deveria ser de RP e agências de comunicação. Como eu disse no texto, esse novo meio exige relacionamento e isso é papel de quem trata de comunicação.

    Pedro – fala cara, tem contato com o povo do curso da ESPM ainda? A resposta exata para seu comentário está no post seguinte, que trata do grupo de estudos que formamos dentro da Abracom.

    Marcia – é bem por aí mesmo. E foi essa postura que me motivou a escrever o post. Temos que ensinar, discutir o que é aceitável ou não, mostrar que a mídia social trouxe novas ferramentas (sobre as quais a maioria ainda não sabe como lidar) mas o processo de comunicação permanece o mesmo.

    Janquiel – pois é meu caro. Ética e profissionalismo são tão raros hoje em dia. Se o mercado se unir tenho certeza que os bons serão excluídos e quem é realmente sério vai levar vantagem.

    Pri Guti – muito obrigado. Na verdade não me sinto ensinando ninguém. O espaço aqui é aberto para a troca de experiências entre profissionais. Todos aprendemos juntos certo? Volte sempre que achar necessário e participe das discussões. Abraço

  7. Post interessante… Comunicação 2.0 é um daqueles conceitos que correm o sério risco de ser jogado na lata do lixo, simplesmente por ser colocado em pauta sem a necessária atenção.
    Muitos clientes, incitados por profissionais ou agências mais interessadas em faturar a conta do que em qualidade total, e no afã de figurarem globalizados, antenados, investem em estratégias on-line desnecessariamente ou de forma enviesada.
    Depois não entendem porque seus blogs ficam às moscas sem um comentário ou seus perfis no orkut são simplesmente de fachada. Não sabem utilizar essas novas ferramentas a favor e perdem boas oportunidades de relacionamento, interlocução e construtivismo.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s