A difícil arte de escrever: muitos questionamentos


Ao ler o post publicado pelo amigo Marcurélio, sobre os dilemas na hora de preparar um texto, acabei me sentindo inspirado a tratar o tema também. Este texto não só parece como é confuso e não sei se você terá paciência para ler até o final. Na verdade, questiono os critérios da qualidade de um texto jornalístico.

Como sabem, mudei de vida e não estou mais em redação de veículo. Passei os últimos oito anos e meio escrevendo matérias para revistas e sites. É difícil admitir, mas em todo este tempo, fiquei realmente satisfeito com um texto meu em raras ocasiões. Lembro-me de algo como quatro matérias de capa que li depois de prontas e gostei do que vi, achei que todas as informações estavam perfeitamente encaixadas, que havia conexão entre um parágrafo e outro. As fontes eram boas, as aspas estavam de acordo com a proposta da reportagem, existia ali um começo, um meio e um fim.

E como isso dá trabalho. Considerando entrevistas, material de pesquisa, matérias anteriores, cheguei a acumular mais de 100 páginas de Word para preparar uma matéria que chegaria, no máximo, a 10 dessas páginas. Organizar essa quantidade de informação chega a ser algo insano. E mesmo com todo esse material tinha receio que não teria recursos suficientes para produzir sequer três páginas.

Sonhei muitas vezes com a revista atrasada porque eu não conseguia fechar o texto. Quanto mais eu escrevia, mais o texto piorava e o “delete” do teclado apagava sozinho qualquer parágrafo ruim, sem que eu desse qualquer comando. Suava e sofria a cada fechamento, a cada início de uma matéria de capa ou qualquer outra reportagem.

Chamava o “caboclo escrivinhador”, uma entidade bastante conhecida nas redações. Evocava os deuses do fechamento. Lia e relia cada parágrafo das anotações feitas durante as entrevistas. Grifava coisas que eu achava mais importantes e que deveriam constar no texto de qualquer jeito. Minha vida não era contada em dias ou semanas, mas em fechamentos.

Tentava usar artifícios de outros colegas. Um deles era criar uma estrutura para o texto antes de começar a escrever. Depois, ia encaixando cada trecho das entrevistas ou do material de pesquisas em cada um dos temas que seriam abordados. Não deu certo.  Acabei criando um estilo meu, particular. O de simplesmente sair escrevendo, sem um sentido único ou fluxo de pensamento . Deixar as idéias fluírem dos neurônios, passarem pelos braços e chegarem às pontas dos dedos.

Depois de chegar a um volume grande, começava a finalmente editar. Recorta aqui e joga ali. Complementa esse parágrafo com determinada informação para ligá-lo a outro tema. Se funciona não sei até hoje. Já tive matérias que fora muito elogiadas e outras que ninguém sequer continuou lendo. Ok, a gente não acerta sempre. Tem amigos que já me disseram que só de ler o começo da matéria, sem olhara para quem assinava, já sabiam que o texto era meu. Vícios por termos, por estrutura, por palavras, todos temos.

Nunca ganhei prêmios de reconhecimento nacional, não sou o melhor jornalista do mundo, não tenho 60 anos de experiência em redação, julgo-me apenas um repórter mediano e com boa vontade de fazer um ótimo texto sempre. O que me causa espanto, entretanto, é o fato da grande maioria das pessoas achar que escrever uma matéria é a coisa mais simples do mundo. Acreditam que, com a informação nãos mãos, basta sentar e escrever. Pronto, em duas horas está na tela uma matéria de capa de 12 páginas com excelente qualidade.

Tem gente que sempre acha o período de apuração a parte mais difícil. Ainda mais com a proliferação dos processos de media training, encontrar boas fontes que rendam ótimas entrevistas ficou um trabalho complexo. Eu sempre achei que escrever fosse a parte mais complicada. Você pode ter as melhores fontes sobre o assunto, mas se não souber organizar tudo isso de forma que faça sentido para o leitor, o resultado será ridículo.

Poucas são as pessoas que entendem o processo de construção de uma reportagem. Não sabem que um bom texto pode demorar dias para sair (contando só a redação, sem considerar o tempo de apuração) e mesmo assim não estar bom o bastante para cativar leitores e se tornar unanimidade ou elogiado por muita gente. Sim, a unanimidade é burra mas é possível encontrar textos em que 9 entre 10 pessoas gostam e apreciam, admiram.

Ainda assim não há muito sentido no que diz respeito a critérios. Lembro-me de uma matéria que penei para escrever, achei o resultado sofrível, mas entreguei o material assim mesmo ao meu editor. Ele achou o máximo e só não a usou como capa porque havia um especial pronto e já determinado como capa da revista. A publicação saiu e o texto foi um dos mais elogiados não só pelo pessoal da redação, mas pelos leitores.

Afinal, quais são os critérios de um bom texto? Esses critérios realmente existem ou são iguais ao gosto musical em que cada um tem o seu e o resto que se dane? Para mim essa questão de critério está muito próxima da discussão sobre ética. O que é moralmente ético para uns pode não o ser para outros, por mais que haja convenções globais.

O que faz de Paulo Coelho o autor nacional mais traduzido para outras línguas – se não me engano de maior vendagem de livros – quando boa parte dos intelectuais acredita que o trabalho dele é medíocre? É a seqüência de fatos narrados? É o ritmo imposto pelo texto e não a história em si? É o contexto criado para o leitor?

Ah, mas não é jornalismo. Então o que diria de Joelmir Beting, considerado um dos maiores da classe no País. E o colunista e blogueiro Claudio Humberto que, poucos se lembram é verdade, mas era assessor especial de Collor? Aliás, quem é o crítico para dizer se uma obra, matéria ou reportagem pode ou não ser considerada boa? Quais critérios são adotados para a estruturação de uma crítica?

Sim, há uma porção de problemas que estão implícitos para a maioria da população em uma reportagem. Os baixos salários, a falta de gente nas redações, o acúmulo de trabalho dos jornalistas, a falta de infra-estrutura que deveria ser fornecida pelos contratantes, as condições físicas e mentais no momento de produção daquele texto. As variáveis são numerosas e criam efeitos – positivos ou negativos – no texto final.

O telefone é a ferramenta principal e não mais a circulação nas ruas do repórter para captar ao vivo os dados. Basicamente o jornalista conta histórias com base na narração de terceiros que podem agir de boa ou má fé. A apuração pode ajudar a resolver, mas quem disse que é possível seguir a trilha de uma pauta do começo ao fim? Quantos grandes veículos não comeram bolas tremendas por conta disso e do desespero que a mídia digital impôs à comunicação. O último caso foi o incêndio da fábrica de colchões na zona sul de São Paulo. Muitos portais e jornalões deram a notícia de que um avião havia caído.

Para finalizar: escrever é um exercício de aprendizado diário e não existe uma regra básica. Ok, isso não é novidade para ninguém, parece papo furado. Só não digam que escrever é algo fácil, simples e que qualquer um pode fazer.

7 thoughts on “A difícil arte de escrever: muitos questionamentos

  1. Então, vc já passou o texto para seu pai e sua mãe lerem? kkk (Piadinha interna, não liguem). É, não é facil. Agora mesmo, após uma longa noite de insônia, estou tentando me concentrar para fechar uma matéria. Haja caboclo! hehehehe

  2. Escrever é um duro ofício, principalmente quando se sofre de uma angustia eterna sobre um bom resultado que não sabemos qual é. Porque não é escrever certo. Não é escrever a verdade. Não é escrever tudo. Não sei o que é. Quem lê pensa mesmo que podemos repetir daqui a pouco. Mas não podemos, temos de sofrer tudo de novo. Mas é bom!

  3. Edu, há uma frase que, diz o Google, é da Clarisse Lispector: “Eu escrevo simples. Eu não enfeito.” Acho que é aí que mora o bom texto e também a dificuldade para escrever.

  4. A pior parte, minha opinião, ocorre quando o assunto está na nossa cabeça. Está lá, lindo e claro. Mas quando vem o momento de escrever, não sai nada de nada… Nenhuma frase parece expressar o que estamos pensando…
    Aff.. isso é péssimo!! Da um desespero! Daí a gente consulta o colega do lado e tudo fica pior ainda…🙂

  5. Lali, sei bem o que está passando. Neste exato momento estou trabalhando com comunicação corporativa de uma indústria. Imagina como é difícil fazer entrevista com pessoas de todos os níveis culturais. Força. Chama o caboclo e manda bala!

  6. minha opiniao e que quando mais se escreve,mais dificil fica,por que sempre queremos fazer uma redaçao perfeita,mas nao conseguimos,entao ficamos frustados e tentamos ,tentamos ,infinitamente,mas eu gosto muito ,desses desafios.

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