Mensagem de fim de ano


Fábio Barros*

Amigo assessor, amiga assessora. Você que ao longo de 2007 passou horas na recepção de seu cliente aguardando uma reunião previamente agendada e esquecida por ele, você que durante este ano teve que dar desculpas esfarrapadas a alguns jornalistas porque seu cliente não os atendeu conforme combinado, você que algumas vezes chegou à noite em casa porque seu cliente remarcou aquela reunião para o finalzinho da tarde e você que já cansou de explicar aos seus clientes que os jornalistas não vão mandar o texto para ele aprovar antes da publicação, mas ele continua não entendendo.

Para você que enfrentou – nem sempre de bom humor – situações como as descritas aí em cima, eu tenho uma boa e uma má notícia. A boa notícia, e que deve deixar o seu Natal um pouco mais alegre, é que seu cliente não lhe odeia e não fez nada disso por mal. Embora estas atitudes deixam transparecer, seu cliente não despreza você, nem quer que você morra à míngua na recepção da empresa enquanto ele termina um almoço. Pode passar o seu Natal tranquilo: as ações existem, mas são inconscientes, quase nunca pessoais.

A má notícia, que deve ser digerida como reflexão para o ano que começa, é que nada disso vai mudar. Mesmo não odiando você, seu cliente vai continuar não lhe dando a menor importância, não entendendo o que você diz e, sempre que possível, vai jogar por água abaixo o resultado de alguns meses de negociações que você manteve com aquele veículo em que ele sonha em aparecer.

Pode parecer contraditório, mas tem explicação: isso tudo acontece, e vai continuar acontecendo porque, na grande maioria dos casos, as empresas não fazem a menor idéia do porquê contratam uma assessoria de imprensa. É puro feeling, mas acho que se um estudo sério fosse feito sobre o assunto, menos de 10% das companhias que hoje contam com serviços de assessoria diriam tê-lo porque precisam de suporte para uma estratégia de comunicação e consolidação de marca previamente traçada e já definida.

Os outros 90% oscilariam por razões que vão desde “o meu concorrente tem” até “porque eu quero aparecer no jornal”, passando pelo clássio “a matriz mandou”. Nestas razões está a semente o tratamento que você assessor, recebe hoje. De fato ele não é dado por mal, mas o seu trabalho – e principalmente o trabalho que você dá – não tem valor perceptível. Em outras palavras, a comunicação não está no radar destes profissionais e eles simplesmente esquecem que você existe, principalmente quando você precisa deles.

Vez por outra você dá uma dentro, e consegue que uma boa entrevista ou uma boa matéria seja publicada. Mas isso não tem nada a ver com seu trabalho. As bolas dentro ocorrem porque ele, o porta-voz, é muito bom. Tão bom que aquela boa entrevista deveria ter saído em um veículo muito melhor, o que não aconteceu por culpa sua. Você deve estar consciente de que essa história de que ele, seu cliente, deve cultivar relacionamentos na imprensa e reservar algum tempo para isso, é só uma desculpa que você inventou para justificar um resultado medíocre.

Na prática, amigo assessor, amiga assessora, você escolheu trabalhar em uma área povoada de gente esquisita. Uns profissionais que têm o rei na barriga, acordam tarde e não respeitam horários. Além disso, tudo para essa gente (que inclui você) é festa, já que eles vivem de escrever sobre o que não entendem e adoram uma boca livre. Na verdade, você se preocupa demais e insiste e dar ares de seriedade a uma função que qualquer “primo da minha mulher” ou meu “sobrinho que estuda na ECA” pode realizar e onde qualquer boa conversinha pode resolver crises ou recuperar imagens.

Sim amigos, assim pensa a grande maioria. Por isso eles não enxergam vocês. Neste Natal, livrem suas consciências de toda culpa e festejem com a leveza dos inocentes. O problema não é de vocês. No Ano Novo, comemorem como se fosse o último, recarreguem suas energias como puderem e voltem cheios de energia em janeiro. Mas voltem preparados: tudo vai continuar exatamente como foi este ano.

* Fábio Barros é gerente de imprensa da Comuni Marketing e editor do site IT Careers.

11 thoughts on “Mensagem de fim de ano

  1. Cara, costumo dizer que assessor de imprensa só vai ser respeitado mesmo no mercado em geral de uma forma: quando disser para algum conhecido que não é do ramo da comunicação que você é assessor e o cara entender como se fosse médico, economista, advogado.
    Show de bola o texto!

  2. Do lado de cá ou do lado de lá, a verdade é uma só. Se você não for apresentador de TV ou amante do presidente da Câmara, dificilmente qualquer outra pessoa que não um jornalista vai entender ou dar valor ao que você faz. Primeiro, todo mundo acha que você escreve sobre qualquer coisa, seja assessor ou repórter. Segundo, muita gente (já ouvi até mesmo de alguns assessores) acha que em redação o pessoal não faz nada além de receber jabás, dar bronca ao telefone e ir a eventos. Terceiro, seus primos advogados, médicos, representantes comerciais e biólogos sempre vão olhar para você com aquela cara de “coitado, não tem uma profissão”. Quarto: namorados(as) e maridos (as, hahaha) de fora do ramo têm certeza absoluta que você está na gandaia em vez de cobrindo aquele evento chato. Quinto: sempre vai ter alguém pedindo para você descobrir a vizinha-boa-cantora, a criança-mala-prodígio, e pedindo você falar com o Jô. Enfim, a lista pode ser interminável… Mas o que seria dessa vida sem emoção, não é mesmo?? Feliz 2008 a todos!

  3. Olha só como são as coisas. Ontem um cliente me disse: “estamos analisando se vale a pena manter a assessoria de imprensa, já que a maior parte dos clippings dos últimos meses veio de jornalistas que nos procuraram e não dos releases que vocês divulgaram”….

    Precisa comentar?????

  4. Ah, eu poderia incluir tantas pérolas proferidas em 2007, infelizmente eu não posso. Mas bem que eu gostaria.

    Ainda bem que pelo menos no Ano Novo estarei em liberdade.

    Aos jornalistas e assessores bom 2008. Que tenhamos forças para continuar…porque 2007 já me esgotou.

  5. Realidade pura!!! A falta de compreensão sobre o nosso setor e a relevância do que fazemos é enorme e ainda me choca a cada reunião de prospecção que faço. Isso sem falar nos clientes, que após anos de convivência e “catequização”, ainda não aprenderam a nos dar valor…..

  6. Sou estudante de jornalismo e faço estágio em assessoria de imprensa. Pelo o que acompanho aqui na Secretaria de Estado de Turismo de MG (local onde trabalho), vejo que o que ocorre é exatamente isso. Adorei! E inclusive encaminhei o texto para minha chefe ler.

  7. Excelente texto! A galera ainda não sabe o que é assessoria, outro dia o cara me perguntou: mas assessor do que? Eu que já tinha falado assessora de imprensa. Acabei repetindo com um timbre mais Forte… POR ESSAS E POR OUTRAS concordo com o Bruno viva o Fup!!

  8. E eu que estou pensando em entrar para este ramo! Acredito que devo rever meus conceitos… Mas deixemos de lamentações, o texto está ótimo. Parabéns!

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