Os bastidores da notícia


Por Silvia Angerami

Quem abre o jornal, assim como quem não quer nada, pode não saber como as notícias “brotam” ali. Muita gente entra e sai da universidade ou até contrata uma assessoria de imprensa sem ter a exata noção de como funcionam os bastidores da notícia. Ou achando que os repórteres “saem às ruas” atrás dos fatos. Ledo engano. O fato é que os tempos ingênuos e românticos ficaram para trás. Hoje, o “profissionalismo” predomina. Profissionalismo que se traduz por elaboradas estratégias de PR (lê-se PI-AR), planos de comunicação detalhados em “power point” e que devem ser aprovados pelo cliente antes de serem executados. Ou seja, qualquer semelhança com uma estratégia de guerra NÃO é uma mera coincidência. O que é muito natural para quem escolheu o curso de Relações Públicas, mas que às vezes causa estranhamento aos profissionais formados em Jornalismo.

Uma vez, tentei falar isso de outra forma no meu blog, talvez de forma afobada e sem muitas explicações, mas acho que não me expressei bem. Fui muito mal compreendida. Eu havia dito que Jornalismo e Relações Públicas (ou Assessoria de Imprensa, embora não sejam sinônimos) são como água e óleo, não se misturam. Com isso, eu quis dizer que há uma diferença básica no objetivo do jornalista (como profissional, como ser humano) e no objetivo do RP (ou do assessor de imprensa). Enquanto o jornalista escreve para o tal “público-alvo” da publicação (olha a guerra aí de novo), o RP está atrás de criar a imagem institucional do seu cliente. A diferença está lá atrás, na razão básica que move esses dois profissionais.

O RP e o assessor, no seu dia-a-dia e para justificar atitudes nem tão, digamos, éticas, costumam usar, até com certa naturalidade, aquela detestável expressão: “o cliente tem sempre razão”. Tudo bem que estamos em uma sociedade capitalista e que, portanto, sujeitos à “força da grana que ergue e destrói coisas belas”, como muito bem poetizou o Caetano Veloso na música “Sampa”. Mesmo porque o jornalista também está submetido a esse poder capitalista quando trabalha em um veículo (grande ou nem tanto) e vê um pedaço da sua matéria ser limado, justo aquele em que ele reportava alguma crítica a um certo anunciante da publicação.

O que eu acho fundamental falar para essa garotada que chega ao mercado de trabalho, ávida por um jabá ou outro, é que eles conservem, pelo menos, um certo idealismo, aquela vontade de mudar o mundo que move todo jornalista (ou deveria mover).   Afinal, quem resiste a um celular oferecido a todos os participantes de uma coletiva de uma fabricante de celulares, por exemplo, ou a um almoço em um restaurante top, a uma temporada em um hotel cinco estrelas, ou a uma viagem internacional, ou até a uma entrevista exclusiva com um importante executivo norte-americano – todas práticas ultracomuns e previstas em praticamente todas as “estratégias” das agências de comunicação, como tive a chance de presenciar “n” vezes. Eu, do alto da minha experiência bem equilibrada de ter estado por longos períodos dos dois lados do balcão, sinto que tenho a obrigação de dizer a eles que conservem – sempre – a vontade de contribuir para fazer desse nosso mundo um lugar melhor para se viver. Sei que dizendo isso corro o risco de parecer piegas, ingênua ou sonhadora. Mas o futuro é feito de sonhos que se tornaram realidade. E eu ainda ouso sonhar.

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3 comentários em “Os bastidores da notícia

  1. Bom, quem não entende a diferença entre assessoria de imprensa e jornalismo, tem que estudar muito ainda. E pior que muitos jornalistas formados não entendem. Assim como uma “garotada” que entra no mercado de trabalho diretamente como assessor de imprensa também não entendem. A garotada formada em RP ou jornalismo – vou dizer claro para o bem da verdade, Sílvia – não se adapta nem em uma, nem em outra área. É uma geração que acredita no sucesso imediato. Já querem entrar no mercado ganhando um alto salário. Acreditam no glamour em vez da verdade. E não é só na área de humanas. Se em humanas está assim, imagine o resto, que só valoriza o lucro a todo custo. O mundo está desumanizado. É esse o problema da garotada. Não é a diferença entre RP, assessoria e jornalismo. É educação.

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