Artigo – Vale (mesmo) a pena ser jornalista linha dura?


Alexandre Barbosa*

A falta de memória é um problema depois de uma certa idade. Mas vamos lá: eu que já fui de redação, virei assessor, voltei para redação de novo, assessor de novo e hoje estou em redação, aprendi com os problemas dos dois lados do balcão a manter um bom relacionamento com gente em ambos os lados.

Claro que também já vi gente casca grossa em redação dançar e depois mudar de lado, passar a ser assessor e virar um amor de gente no trato do dia a dia e gente que já era decente, manter a atitude.

Falei da memória porque o caso mais clássico que conheço – conhecido aliás – me foi contado no início de carreira por colegas, de um cara de sucursal do JB ou do Globo, algum grande jornal da época que sempre desdenhou assessores até que, pelas voltas que o mundo dá, virar assessor e, em seu primeiro dia de trabalho, ganhar dos colegas uma faixa com os dizeres “Nada com um dia após o outro. Bem vindo FULANO ao lado dos assessores de imprensa.”

Olha, considerando o que eu já ouvi de pares meus em redação e de colegas na época de assessor, o ressentimento é justificável em muitos casos. Bem, depois desse imenso nariz de cera, a questã? Vale a pena ser jornalista linha dura quando se está em redação?

Pergunto porque tem gente que acha que sim. Espezinha assessores e fontes a granel porque isso, sei lá, empresta um ar de independência ao jornalista (na real: muitas redações e editores das antigas gostam disso). Só que tem horas que as pessoas se excedem.

Começam a criar rusgas desnecessárias, viram quase personagens de si mesmos. Daí vem uma dessas reviravoltas que mudam tudo, tiram o chão destas pessoas e aí se questiona: valeu a pena criar círculos de desafetos?

Em última instância, quem é mais importante nisso tudo, o leitor, foi beneficiado com a atitude do jornalista ou teve acesso a uma matéria mais verdadeira ou mais completa?

Eu duvido. Muito.

Nestes dez anos, vi de tudo. Vi jornalistas que eram rudes virar assessores gentilíssimos, sem empalidecer por um segundo, convivendo com seus novos pares nas salas de imprensa de grandes eventos como se as neuras de antes nunca tivessem acontecido.

Também vi jornalista rodar, cair do posto e ter até assessores comemorando quando sabiam da novidade. Mas tem coisa pior. Vi jornalista rodar e, cadáver ainda nem frio, ver gente de sua própria ex-equipe desdenhando a queda.

Relacionamento

Tem aquele velho problema do relacionamento assessor-redação e as falhas de abordagem (Hello?!?!? Estamos no Perolasais, lembre-se) e os problemas de qualidade profissional de parte a parte, invocados em 100% das vezes para justificar tratamento rude a assessores.

Mas isso à parte, também acho que os assessores não estão totalmente bobos. Tem jornalista linha dura que, ao custo de matérias negativas (sem necessidade) todo o tempo, criou uma lista negra de empresas e agências que preferem não ceder produtos para avaliação ou evitam entrevistas, sempre que possível.

E um círculo que, embora grande, não cessa de se expandir. E não pelos reviews negativos, até porque são companhias que estão acostumadas a enfrentar avaliações não necessariamente positivas em veículos de alcance global. Não, o problema aqui é que o comportamento linha dura virou sinônimo de parcialidade, justamente o oposto do que esse tipo de atitude procura cativar.

Há ainda o fator ‘torre de marfim’, que faz com que pessoas ‘se achem’ ao estar em veículos de maior projeção e incorporam seus cargos, cadeiras como se fossem uma extensão de suas personalidades, e que usam como se fossem deles para exaltar ou denegrir quem eles bem queiram ou para impor suas visões de mundo ou o trato que se deve dar a pessoas, fatos e organizações.

Pergunto novamente: a quem serve esse tipo de pessoa? Ao leitor? Ao produto final, que são as matérias?

Aproveito o gancho novamente para falar de relacionamentos, respeito e tolerância, que são as bases essenciais no trato entre colegas de redações e assessorias.

Lembremos que há o balcão, e o que esta diferença representa. Não nos esqueçamos de tratar um ao outro com a devida atenção e o devido profissionalismo nas atividades do dia a dia.

E nem é porque amanhã quem é de assessoria vai para redação ou porque quem é de redação pode precisar de trabalho em agência amanhã (precisa-se muito, diga-se de passagem). É porque é o mínimo que se espera de quem lida com pessoas, para apresentar outras histórias para outras pessoas que são mais importantes, que é quem compra jornais e revistas, quem consome rádio, TV ou internet, e que paga as minhas contas e que justifica os assessores terem interesse em me mandar materiais.

Se o relacionamento não servir para atender ao público final, podem escrever: é porque alguma coisa está errada.

E, sim, nada como um dia após o outro…

*Alexandre Barbosa é editor-assistente do Portal de Tecnologia do Estadão

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8 comentários em “Artigo – Vale (mesmo) a pena ser jornalista linha dura?

  1. Relacionamento é tudo mesmo Alexandre…
    E eu que: já fui assessor, jornalista, cartunista, publicitário, chefe, pau-mandado…depois voltei a ser tudo isso e mais um pouco… e hj tenho um cargo que posso mudar a definição da manhã para a hora do almoço digo:
    Dudu, esse assunto já deu o que tinha que dar.

  2. Sensacional, Alexandre! Texto muito oportuno! E, Giba, não acho que esse assunto “já deu o que tinha que dar”, até porque é o primeiro texto que vejo aqui no Pérolas redigido por um jornalista de redação assumindo esse grave comportamento da categoria (sem generalizações, claro). Sou repórter (nunca fui assessor de imprensa) mas tenho de admitir: alguns colegas, que não são poucos, perdem a noção ‘de vez em sempre’, com uma atitude arrogante e uma grosseria injustificável, como se fossem importantes demais e os assessores, meros serviçais!

  3. Giba, já coloquei aqui várias vezes que detesto essa discussão sobre a dependência de um sobre outro. Aliás, essa é uma das mais banais. Na verdade, o que o Alex tentou demonstrar aqui é que: no fundo, o dia dessas figuras arrogantes e donas do mundo chega e a casa cai de uma vez. A gente vive falando sobre colaboração, distribuição de conhecimento e coisa e tal. Mas essas figuras insuportáveis estão por aí e em número maior do que imaginamos! Valeu pela comentário. Aliás, seu blog tá cada dia melhor.
    abração e vamos marcar de tomar uma!

  4. Gente…
    O texto do Alexandre é uma beleza. Parabéns. Mas, não estou criticando o texto… critico a pauta.
    No final, a discussão é sempre assim: “de um lado tem profissional bom e gente arrogante; do outro lado tem profissional bom e gente arrogante. Por que isso é assim e não um mar de rosas?”.

  5. Oi gente, adoro o Alê e gostei muito do texto, inclusive da invocação do público-alvo. Também já passei pelos dois lados do balcão e posso contar sobre comportamentos terríveis em todos os “centímetros quadrados do mercadinho”. Mas o que sempre pensei, apesar das pérolas, é que no fim o relacionamento se dá entre pessoas. E nada no mundo justifica o tratamento que certas pessoas dão a outras. É educação nível 1 e respeito pela vida em sociedade. E isto vale pra todo mundo. Como já execraram exemplares de redação chiliquentos, falo do tipo de pessoa que faz assessoria de uma mão só, evitando atender, mesmo quando não está sobrecarregado de solicitações “prioritárias”, jornalistas “menores”, com uma urdida e bem divulgada falta de educação, estando aí o toque de maldade.

  6. Tem pautas que só se esgotam quando a sociedade muda: acho que essa é uma delas. No nosso gueto, esse é um desafio que ainda não foi superado e quanto mais novo é o repórter, ou assessor, mais sentido tem esta pauta. Para quem já viveu mais de cinco anos nesta terrinha maluca pode até parecer sem sentido como é o meu caso, mas ainda acho que com meus 10 anos de jornalismo tenho algo a acrescentar sobre a tal pauta: assim como é complicado determinar a melhor maneira de se relacionar como humano continua impossível agradar a todos. o cara, seja assessor ou jornalista – até tem boa intenção, mas uma hora vai fuder alguém… nem sempre pq é o que pretende fazer, mas pela própria dinâmica do mercado. Fora isso, acho que já diminui muito a arrogância do jornalista e do assessor. Não se se porque estou mais velha ou pq não enxergo tanto essa loucura que me incomodava quando ainda era foca…O fato é que acredito que a discussão tenha já transformado nosso mundinho de merd…

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