Ponto de Vista: Ceila Santos


Nome Completo: Ceila Santos
Cargo Atual: frila
Breve histórico profissional: Jornalista há 10 anos, formada pela PUC_SP. Começou no extinto Diário Popular, virou repórter na Revista Distribuição e caiu na área de TI por meio de frila que fazia para a IT Mídia. Foi contratada em 2000 pela IDG onde ficou até novembro de 2005. Em 2003, ganhou o prêmio Imprensa Embratel na categoria “Veículo Especializado”. Atualmente, além de frilas, é autora do blog Freelancer – o profissional que rala.


Quando você descobriu que teria de se virar com frilas, bateu um desespero? Qual foi sua reação quando caiu em si?

Amei. Na verdade busquei ser frila. Fiquei cinco anos na mesma empresa e no mesmo cargo. Ou seja, alguma coisa estava muito errada comigo. Mas quando pensava em mudar: não queria assessoria nem redação de grande imprensa. Meu desejo era não ter horário fixo e continuar a escrever. Deixei claro que queria isso e aconteceu no momento certo.

Como tem sido a batalha por frilas? Afinal, o mercado está repleto de bons profissionais que hoje vivem basicamente de trabalhos esporádicos.
Não se trata de batalha. É uma verdadeira guerra silenciosa. São poucos privilegiados que podem colocar a ética profissional em primeiro lugar e não aceitar as propostas extremamente vergonhosas. Eu não posso. Tenho uma filha para criar e preciso de dinheiro. Então, na maioria das vezes, aceito. Minha sorte é que recebo pouco essas propostas.

Os valores dos trabalhos vêm caindo ou é possível se firmar com algumas editoras e garantir mensais?

É possível garantir o “salário” do mês. Mas não há mais oportunidades para esses “acordos de cavalheiros”. Esses acordos estão consolidados. Mas sempre sobra uma reportagem para a lista de espera. No meu caso, estou na lista de espera. Não há queda do valor de cada editora. O problema é que não há reajuste mesmo com os reajustes do Sindicato, que há muito tempo não revia a tabela de preço dos frilas.

O QI (Quem indica) ainda é o mais importante para viver de frila?
SEM DÚVIDA NENHUMA. Sem ele, ninguém entra. Depois que tem o QI, o resto é
com você.

Por qual motivo é tão difícil para um frila retornar ao mercado com trabalho fixo? O que falta, confiança?
Eu não tenho vontade de voltar para redação nem conhecer o balcão corporativo ou da assessoria neste momento. Por isso, não tenho idéia se há essa insegurança de quem vai contratar um profissional. Acredito que não. Acho que os frilas que querem e não estão na seleção de possíveis vagas só não estão por falta de QI. Afinal, cá entre nós, o frila tem uma experiência extremamente vantajosa porque não deixou de escrever, entrevistar e ainda tem o desejo de trabalhar. Ou seja, é um profissional experiente em busca de oportunidade. Não vejo motivo para não confiar num profissional desse perfil.

Geralmente trabalhar de frila tem valido mais a pena do que em redação porque acaba tirando praticamente a mesma quantia em dinheiro? Ou isso não procede?
Depende. Tem mês que tira mais que o salário de um repórter de TI, tem mês que não tira nem 500 paus. Mas como recebe somente um mês após o frila feito, dá para planejar e ter uma média salarial. No meu caso, ganho menos que antes, mas “vivo” muito mais que antes.

Já pensou em desistir e tentar fazer outra coisa? O que, por exemplo?
Jamais. Adoro apurar e escrever. gosto de lamber as boas reportagens. Saboreio cada vitória de conseguir convencer um editor novo a aceitar meu trabalho. é uma conquista diária. Estou em processo de seleção semanalmente. Não para um cargo dentro da redação, mas por uma chance para fazer o que gosto: escrever. Tem um detalhe importante: nunca esperei ficar rica com jornalismo. Minhas ambições sempre foram o resultado do meu trabalho. Isso é uma referência importante para ser frila. Quem quer ganhar dinheiro, não pode almejar ser frila nem repórter. Para quem busca grana, a trilha tem que ser pela área corporativa( leia-se tanto assessoria, gerencia corporativa como editoria e diretoria de redação).

O suporte da família – marido no caso – faz diferença certo? Em que aspecto?
Muita diferença. Acho que o aspecto mais importante é o companheirismo. Mesmo ciente do impacto que teria minha saída da IDG no nosso orçamento familiar, meu marido sempre me apoiou. Hoje, mesmo quando o mês não fecha, ainda damos risada juntos. Isso é fundamental para manter minha opção de vida porque quando a grana ganha representatividade maior do que ela tem na vida de um casal, nada dá certo.

Qual a maior dificuldade de um frila hoje?
Grana e falta de oportunidade.

Existe algum tipo de apoio aos frilas no mercado hoje? Ou é cada um por si?
Nenhum apoio por parte de quem deveria dar (leia-se sindicatos, representantes e as grandes editorias do mercado) Mas estamos no mundo de jornalismo que por mais concorrente que seja sempre é e foi feito por amigos. E todo jornalista sempre tem muito amigo. Acho que o jornalista é muito amigo dos amigos.

Acha que esse mercado se organizará em alguns anos ou nada será feito?
Pergunta difícil essa. Vejo jornalismo numa transformação tão grande que não tenho noção do que poderá acontecer amanhã. A informação não é mais prioridade de jornalista. Graças á Deus. Sou a favor dessa diversificação. E a internet trouxe a segmentação. A TV digital vai contribuir ainda mais para categorizar o público. Isso deve trazer mudanças drásticas na nossa área. Entretanto, nossas regulamentações estão no caminho inverso. Ou seja, estamos no meio de mais um paradoxo do Brasil. Não vejo chances de nos organizar por meio de sindicatos. Talvez as próprias circunstâncias ditarão novas regras.

Que dica daria para quem deseja se arriscar no mundo dos frilas?
Tenha amigos e muita persistência. Não adianta fazer apenas quatro tentativas para falar com editor dos seus sonhos. É preciso montar um plano para convencê-lo de que ele precisa de dar um frila.

Veja outras entrevistas:
José Paulo Lanyi, um dos fundadores da AllTV
Nelson Sirotsky, presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ)
Ricardo Ribeiro, diretor da VipComm
Alexandre Barbosa, editor-assistente de tecnologia do portal do Estadão
Anna Lucia França, diretora da Fonte da Notícia
Cibelle Bouças, repórter do Valor Econômico
Fábio Barros, sócio e gerente de imprensa da Comuni Marketing

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6 comentários em “Ponto de Vista: Ceila Santos

  1. Excelente a entrevista com a Ceila! Mais uma vez, Edu, vc está de parabéns! Aliás, a Ceila se saiu muito bem! Gostei da lucidez, da forma clara e objetiva como respondeu as questões. E demonstrou estar muito bem resolvida em sua profissão. Parabéns! Apenas um ‘porém’. Qdo a Celia diz que não pode esperar apoio do sindicato. Longe de mim levantar a bandeira do sindicato. Nem faço parte da chapa (rs), mas é que o sindicato não é (e nunca foi) uma instituição de apoio. É uma instituição de ajuda e colaboração MÚTUAS. Em outras palavras, o sindicato, nos casos mais específicos, só ajudará o jornalista que se fizer representar, ou seja, que for até lá e pedir auxílio jurídico ou trabalhista e afins…

  2. O que quero dizer com tudo isso é que, pro sindicato, somos apenas nomes, uma estatística, números… Nada mais do que isso. A partir do momento que vou até lá e encaminho um problema, sei lá, uma pendenga jurídica, como uma empresa caloteira, o sindicato ‘apóia’, disponibilizando sua estrutura e pessoal para tal fim. Pois, até onde sei, o sindicato tem, sim, colocado (pra citar um só exemplo) seu departamento jurídico no ‘pé’ das empresas caloteiras (que tem a péssima mania de não pagar os frelas). Basta somente que levemos os problemas e as questões ao sindicato. Bem ou mal, eles estão lá para nos representar. Sei que, pelo texto, tá parecendo mais que sou do sinditato. rs Mas não é… é pra ‘tentar’ trazer luz sobre esse tema tão obscuro entre os jornalistas (de maneira geral), que é a relação do sindicato com a categoria, onde começam e terminam nossos deveres e direitos com a instituição (taí, Edu, por que não fazer a próxima entrevista com o novo presidente do Sindicato de Jornalistas de SP)??
    Abç a todos os colegas (espero não ter falado muita besteira) e, mais uma vez, parabéns Ceila!!!

  3. Oi Daniel, entendo sua ressalva em relação ás instituições que nos representam, mas continuo firme na minha posição que não há iniciativas para freelancers como deveriam ter. Prova disso é a entrevista feita no Freelancer com presidente da FENAJ. du muito obrigado pelo convite e ainda esta semana destaco a entrevista no meu blog. Brigaduuuuuuuuuuuuuu

  4. Aí é que está! Se não há iniciativas para a categoria de frelas, até que ponto isso não é culpa dos próprios frelas? Será que eles estão cobrando, indo até o sindicato, se fazendo representar, pressionando? Tenho certeza que a maioria nunca nem pôs os pés no sindicato!! É o que eu digo: ‘sindicato forte é sindicato de classe unida’.

  5. Oi daniel, olha eu aqui de novo. Acho que se montei um blog voltado para freelancer, sendo freelancer e consegui uma entrevista com presidente da FENAJ é porque estou tentando… Ou seja, a banda de cá está fazendo, sugerindo e gritando por iniciativas. Falta a banda de lá responder com a abertura de comitês e algo que estimule a classe ficar unida. Afinal, o trabalho dos representantes é unir, ou não?

  6. Que bom, Ceila! Fico contente em saber! Pena que vc é exceção. Como diz o ditado, ‘uma só andorinha não faz verão’… Bj.

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