Ponto de vista: José Paulo Lanyi


Jornais e revistas têm mantido o seu braço eletrônico, uma forma de garantir participação na nova mídia e buscar a transferência do público on-line para o papel. Mas de nada valerá se o impresso não encontrar formas mais atraentes de cativar o seu público. ”É bom que o faça rápido. Do jeito que as coisas andam, quanto mais computadores pior para a mídia tradicional”, avisa José Paulo Lanyi, jornalista e integrante da equipe fundadora da allTV – uma das primeiras emissoras via web. A sinergia entre os veículos impresso e eletrônico ainda é pobre. Confira a entrevista que fiz com ele também para a matéria de capa da B2B Magazine.

B2B Magazine: Qual o impacto da web no meio de comunicação impresso?
José Paulo Lanyi:
Desafiador, em face do aumento da concorrência. Sabe-se que o número de leitores da mídia impressa tem caído nos últimos anos, não só por razões editoriais. A Internet agravou essa situação. O público leitor brasileiro tem computador em casa ou no trabalho. Natural que se sirva das facilidades da leitura on-line. Mais do que isso: a web é um espaço em que a criatividade viceja, em uma comparação que desfavorece o meio impresso: as amarras do formato, aliadas à mesmice e à falta de ousadia de muitos editores, acabam engessando as publicações. Jornais e revistas têm mantido o seu braço eletrônico, uma forma de garantir participação na nova mídia e buscar a transferência do público on-line para o papel. Mas de nada valerá se o impresso não encontrar formas mais atraentes de cativar o seu público. É bom que o faça rápido. Do jeito que as coisas andam, quanto mais computadores, pior para a mídia tradicional.

B2B: Como você vê a convergência das mídias (rádio, TV, jornais, revistas, etc) hoje? De que forma os veículos impressos se encaixam nesse novo contexto? E a Televisão e o rádio, como ficam nessa história?
JL:
Tenho o privilégio de integrar a equipe fundadora da primeira emissora de TV on-line do mundo, a allTV (www.alltv.com.br). A allTV demonstra na prática essa fusão midiática. É a TV na Internet com conteúdo de impresso e linguagem de rádio. Claro que isso deságua na interatividade, um elemento fundamental da convergência. O meio impresso é representado pela parceria entre a emissora e o jornal e a revista. São vários os exemplos de publicações que buscaram o seu espaço na grade de programação. É um caminho de duas vias, em que a emissora ”chama” a publicação e vice-versa. Da mesma forma que se dizia, no passado, que a TV acabaria com o rádio, diz-se que o meio impresso está ameaçado pela Internet. Ameaçado, sim, por incompetência, mas não será extinto. O meio impresso tem que pensar que, se o seu inimigo é mais forte, que se junte a ele. É daí que nasce algo interessante. A crise tende a produzir resultados estimulantes. Na allTV, em meio a obstáculos infindáveis, sobretudo no que diz respeito à acomodação das agências de publicidade, fomos reconhecidos no ano passado com o Prêmio Esso de Melhor Contribuição ao Telejornalismo. Veja a denominação: ”telejornalismo”. E na Internet.

B2B: Alguns críticos afirmam que os jornais não sabem ainda utilizar o pontecial da web. Isso porque simplesmente tranferiram o conteúdo do impresso para a internet sem agregar valor de alguma forma. Concorda com essa afirmação?
JL:
Em parte, sim. Exemplo cabal é o jornal ”O Estado de S. Paulo”, com o seu formato PDF. O respiro do grupo é a Agência Estado (www.estadao.com.br), que resolve isso apenas no arco do hardnews, a que se propõe. De modo geral, portanto, tem-se uma mera transferência, sem respeitar as peculiaridades do público da Internet. Revistas como a ”Época” e a ”IstoÉ” deram-se conta dessas diferenças, publicam também conteúdo interativo, como jogos e testes em consonância com algumas reportagens. Na Internet isso funciona.

B2B: Os jornais brasileiros estão preparados para essas revoluções nos meios de comunicação?
JL:
Investe-se muito pouco, menos do que se deveria. Temos nas Redações um número cada vez maior de profissionais inexperientes em cargos-chave, como repórter e editor. Nos grupos em que há mais de um jornal, o repórter muitas vezes tem que produzir para dois ou três. Na maioria da vezes, simplesmente sai o mesmo texto nos dois jornais. Isso é um desrespeito ao leitor, que não é bobo e passa a comprar menos. A sinergia entre os veículos impresso e eletrônico ainda é pobre. Há que se investir em profissionais que pensem e realizem sob o signo da ousadia, sem que o medo de perder o cargo prepondere sobre as medidas necessárias que, uma vez aplicadas, serão benéficas para os veículos.

B2B: Qual a influência dos blogs? Acredita na possibilidade deles tomarem a posição de alguns veículos de comunicação? Eles são uma ameaça aos jornais e demais veículos?
JL:
Os blogs têm tido uma importância crescente nos dias de hoje. Mas é como tudo na vida. Só serão levados a sério aqueles que souberem aliar, no espectro jornalístico, credibilidade, criatividade e acesso às fontes. Os demais podem até sobreviver, mais como diário ou um bate-papo entre amigos. Não creio que sejam uma ameaça aos jornais, mas um elemento agregador. Veja o caso do Blog do Noblat, que acabou indo para o Estadão. Quando os jornais querem, resolvem.

B2B: A Associação Mundial de Jornais (AMJ) anunciou no início do ano a criação de um grupo que estudará modalidades da cobrança de direitos autorais aos portais de busca que indicam suas páginas. O argumento usado é o de que esses sites ”exploram o conteúdo” dos jornais ”sem entregar uma compensação razoável aos proprietários dos direitos autorais”, afirmou a entidade. Concorda com essa posição? Só a marca dos jornais será o suficiente para explorar financeiramente banners em seus portais sem o número de visitas gerado pelos buscadores?
JL:
Acho isso uma burrice monumental. É a prova de que muitos donos de jornal ainda não entendem o funcionamento da Internet. A meu ver, a chamada para o jornal só agrega audiência on-line. É uma espécie de parceria espontânea. Vários sites costumam reproduzir os meus textos. Não ligo, desde que me dêem o crédito e ao portal em que escrevo, o Comunique-se (www.comunique-se.com.br). Os jornais deveriam se preocupar mais com o próprio conteúdo e com a sua inserção nesse novo meio. Mais criatividade, menos mesquinharia. Do contrário, podem atirar no próprio pé e perder mais leitores.

Veja outras entrevistas:
Nelson Sirotsky, presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ)
Ricardo Ribeiro, diretor da VipComm
Alexandre Barbosa, editor-assistente de tecnologia do portal do Estadão
Anna Lucia França, diretora da Fonte da Notícia
Cibelle Bouças, repórter do Valor Econômico
Fábio Barros, sócio e gerente de imprensa da Comuni Marketing

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4 comentários em “Ponto de vista: José Paulo Lanyi

  1. às vezes, quando leio uma entrevista como essa, com opiniões que combinam com as minhas em relação a jornais na internet, informação disponível e futuro, sinto um alento, uma coisa boa… Contudo, outras vezes, através da fala e da práticas de pessoas (os usuários que não são analistas)- eu ainda acho que a internet é um palácio sendo admirada por uma quantidade gigante de burros (no bom sentido). Sabe aquele caipira que fica olhando pra um prédio de vidros espelhados no centro da cidade… pois é… o máximo a que ele se atreve é olhar de boca aberta. Eu acho (*acho simplesmente*)que o usuário cata uma informação só e se serve dela… sem checar, sem comparar.. ou seja, sem dar utilidade à quantidade que existe. Grande parte dos meus alunos apenas usa a internet, como se usasse uma enciclopédia com verbetes que não se repetem…. e isso é angústia pra mim…[ai, chega de tanto falar…rs]

  2. Pois é Ale, foi exatamente assim que me senti quando comecei a fazer as primeiras entrevistas para a matéria. Sinceridade, o que senti é que os veículos tradicionais – em especial os de massa – estão “vendidos” na história. Completamente perdidos. Hoje saiu a nova versão do New York Times. Os caras já tinham sido os primeiros a oferecer a primeira página no iPod, da Apple, agora lançam novo site com TV e Podcast integrados. Parece que estão se movendo mais rápido e vão levar o restante com eles. Aqui no Brasil, entretanto, não consegui ver nada de significativo, apesar das palavras do Nelson Sirotsky (em entrevista mais abaixo).
    Os usuários não ficam atrás. Estive em um evento em Porto Alegre semana passada e o coordenador do Procon de lá passou uma informação valiosa: 62% dos brasileiros são analfabetos funcionais, ou seja, sabem ler, escrever, mas não identificam oportunidades e utilidade naquela informação, não memorizam, não sabem o que fazer com ela. É isso. Mesmo depois do Google – que organizou um pouco a zona que é a web – o povo continua sem saber o que fazer com ela.

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