Ah se a moda pega


O Estado de S. Paulo, 3 de janeiro de 2006.

Agora os entrevistados gravam as entrevistas

Fontes insatisfeitas até republicam o conteúdo em sites

Katharine Q. Seelye

Durante décadas, mesmo quando as fontes de informação achavam que suas declarações tinham sido mal interpretadas, era improvável que elas enfrentassem os jornalistas ou donos de jornais, acreditando que o poder da imprensa dava a ela própria a palavra definitiva.

A internet, e especialmente o poder amplificador dos blogs, está mudando isso. Fontes insatisfeitas descobriram há pouco tempo que poderiam usar seus sites na Web para corrigir o registro ou desconstruir artigos para expressar o que consideravam ser narrativas tendenciosas ou errôneas de jornalistas.

Agora, eles estão dando um passo além. Os entrevistados estão revidando. Eles passaram a usar os mesmos métodos que os jornalistas utilizam – gravando entrevistas, salvando trocas de e-mails, tomando notas em conversas telefônicas – e publicam o conteúdo em seus próprios sites e blogs. Essa nova arma está ajudando a mudar a maneira como as notícias são apuradas e apresentadas. E isso traz implicações para o futuro do jornalismo.

Basta perguntar aos produtores do programa Nightline, da rede de TV ABC News. A rede transmitiu, em agosto, uma reportagem sobre o design inteligente (crença de que a evolução não é suficiente para ter formado a vida, processo que exigiria um “criador”), entrevistando integrantes do Discovery Institute, uma organização conservadora. Eles não gostaram nada da reportagem.

No dia seguinte, o instituto publicou no seu site a transcrição completa da entrevista com quase uma hora de duração – o programa que foi ao ar havia usado apenas breves citações da entrevista. Na verdade, o instituto não acusou a ABC de qualquer erro. Mas convidou quem acessa sua página a analisar a entrevista não editada, porque ela revelaria “o tom previsível de algumas das perguntas” feitas pela equipe do Nightline. “Aqui está sua chance de penetrar nos bastidores da mídia nacional para ver como eles fazem uma triagem dos pontos de vista e informações que não se encaixam nos seus estereótipos”, escreveu Rob Crowther, o porta-voz do instituto no site.

A publicação de transcrições, mensagens eletrônicas e conversas – e mesmo a capacidade de buscar informações em sites como o Google – tem dado poderes àqueles a quem Jay Rosen, um blogger e professor de jornalismo da New York University, chama de “pessoas anteriormente conhecidas como o público”.

“Nesse novo mundo, o público e as fontes são também ‘publicadores'”, disse Rosen. “Eles agora dizem aos jornalistas: ‘Nós também somos produtores. Portanto, a entrevista fica no meio, entre nós. Vocês produzem coisas a partir dela e nós também’. De agora em diante, num situação de entrevista potencialmente hostil, esta será a norma.”

Todas essas evoluções têm obrigado os jornalistas a reagir de várias formas, inclusive se tornando mais abertos em relação a seus métodos e técnicas e talvez mais conscientes sobre a forma como filtram as informações.

“Na medida em que você sabe que existe alguém monitorando cada palavra, isso provavelmente o impele a ser ainda mais cuidadoso, o que é uma coisa boa”, disse Chris Bury, o correspondente do Nightline cuja entrevista foi publicada na íntegra pelo Discovery Institute. “Mas os leitores e telespectadores precisam compreender que uma entrevista é apenas uma parte da reportagem, que existem outras entrevistas e outras pesquisas e esta é apenas um parte do que constitui uma reportagem completa”, acredita Bury.

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Um comentário em “Ah se a moda pega

  1. Bom, há uma vantagem em a fonte gravar a entrevista também. Se o repórter for assaltado na volta à redação ou perceber que não gravou a entrevista, ele pega o backup emprestado com o entrevistado.
    Risos.

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